Interseções entre a antropologia neoliberal e o intento reformista na educação

ainda é possível uma pedagogia contra-hegemônica?

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15448/2179-8435.2025.1.45205

Palavras-chave:

Neoliberalismo, Ensino Médio, Reformas Educacionais

Resumo

Neste ensaio, realiza-se uma crítica ao conceito antropológico neoliberal subjacente às recentes proposições de reformas do Ensino Médio, na medida em que essas suposições inibem o desenvolvimento de um modo de vida democrático e acarretam a morte de um homem público. O artigo se encontra organizado em três seções. Na primeira, analisam-se as obras basilares de autores neoliberais, a fim de identificar o conceito antropológico presente nessa razão-mundo (Dardot; Laval, 2016). Posteriormente, discute-se sobre a interseção existente entre os pressupostos antropológicos neoliberais e alguns tópicos contemplados nas propostas de reforma do Novo Ensino Médio. Identifica-se, por meio desta análise, que, sob conceitos caros ao pensamento pedagógico ou expressões e termos socialmente valorizados, ocultam-se propostas educacionais ancoradas em pressupostos de hipertrofização dos indivíduos e monetização das subjetividades. Por fim, justifica-se a crítica aos preceitos antropológicos subjacentes às proposições reformistas, indicando que esses, ao fomentar a liberdade negativa e a lógica concorrencial, podem desencadear a morte de um homem público.

 

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Biografia do Autor

Mateus Lorenzon, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS, Brasil.

Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade de Passo Fundo (UPF), na linha de pesquisa 2: Processos Educativos e Linguagem. Bolsista do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições Comunitárias de Educação Superior (PROSUC) pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES II). Mestre em Ensino, pela Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), em 2018; especializado em Educação e Saberes para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSUL), em 2022; e graduado em Pedagogia, também pela UNIVATES, em 2016. Professor nas redes públicas de Arroio do Meio/RS e Lajeado/RS.

Altair Alberto Fávero, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, RS, Brasil.

Bolsista de Produtividade em pesquisa 2. Possui pós-doutorado (bolsista CAPES), pela Universidad Autónoma del Estado de México, em 2012; doutorado em Educação, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2007; mestrado em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em 1998; especialização em Epistemologia das Ciências Sociais, em 1993, e graduação em Filosofia Licenciatura Plena, pela Universidade de Passo Fundo, em 1989. Atualmente, é professor titular III e pesquisador da Universidade de Passo Fundo desde 1992. É professor do corpo docente permanente do mestrado e doutorado em Educação (desde 2008), atuando na linha de políticas educacionais. É coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior (GEPES – UPF/RS), no qual coordena os projetos de pesquisa “Docência universitária e políticas educacionais”, “Políticas curriculares para o Ensino Médio” e “Políticas para o ensino de Filosofia”. É, também, pesquisador do Observatório do Ensino Médio do Rio Grande do Sul e da Rede Ensino Médio – Pesquisa.

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Publicado

2025-12-16

Como Citar

Lorenzon, M., & Fávero, A. A. (2025). Interseções entre a antropologia neoliberal e o intento reformista na educação: ainda é possível uma pedagogia contra-hegemônica?. Educação Por Escrito, 16(1), e45205. https://doi.org/10.15448/2179-8435.2025.1.45205