Trabalho e sofrimento: a extinção de cargos na universidade pública

Thais Ferrugem Sarmento, Jussara Maria Rosa Mendes

Resumo


Este artigo analisa os efeitos das transformações estruturais ocorridas nas universidades públicas federais e suas repercussões na saúde e no trabalho dos servidores ocupantes de cargos em extinção em uma universidade federal do sul do país. Para empreender esta análise, deu-se ênfase à abordagem qualitativa, à revisão do estado da arte sobre o tema e à realização de entrevistas semiestruturadas com a gestão superior da universidade, com a representação sindical e com nove servidores ativos ocupantes de cargos em processo de extinção. Os resultados evidenciam que as trajetórias desses servidores estão marcadas pelo sofrimento, pela discriminação e pela falta de alternativas para inserção no mercado de trabalho. As estratégias por eles empregadas para o enfrentamento das dificuldades em seu quotidiano de trabalho na universidade têm efeitos meramente paliativos, não sendo capazes de modificar a realidade em que se encontram. Tornam-se reféns e invisíveis, o que contribui para a produção do sofrimento e do adoecimento no trabalho.


Palavras-chave


Saúde. Trabalho. Universidade pública. Extinção de cargos. Sofrimento.

Texto completo:

PDF

Referências


ALVES, G. Dimensões da globalização: o capital e suas contradições. Londrina: Praxis, 2001.

ALVES, G. Trabalho e sindicalismo no Brasil: um balanço crítico da “década neoliberal” (1990-2000). Revista de Sociologia e Política, v. 19, p. 71-94, 2002.

ALVES, G. Dimensões da reestruturação produtiva: ensaios de sociologia do trabalho. Londrina: Praxis, 2007.

ANDRADE, M. B. O desvio ilegal de função de servidor público titular de cargo efetivo como prática atentatória aos princípios da legalidade, da moralidade e da impessoalidade. Revista Espaço Acadêmico, n. 132, p. 79-87, 2012.

ANTUNES, R. Os caminhos da liofilização organizacional: as formas diferenciadas da reestruturação produtiva no Brasil. Ideias, v. 10, n. 1, p. 13-24, 2003.

ANTUNES, R. O trabalho, sua nova morfologia e a era da precarização estrutural. Revista Theomai, n. 19, p.47-57, 2009.

ANTUNES, R. A nova morfologia do trabalho no Brasil: reestruturação e precariedade. Nueva Sociedad Especial em Português, 2012. p. 44-59.

ANTUNES, R.; POCHMANN, M. Dimensões do desemprego e da pobreza no Brasil. InterfacEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente, v. 3, n. 2, p. 2-10, 2008.

ARAÚJO, T. M.; SENA, I. P.; VIANA, M. A.; ARAÚJO, E. M. Mal-estar docente: avaliação de condições de trabalho e saúde em uma instituição de ensino superior. Revista Baiana de Saúde Pública, v. 29, n. 1, p. 6-21, 2005.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BERNARDO, M. H. Produtivismo e precariedade subjetiva na universidade pública: o desgaste mental dos docentes. Psicologia & Sociedade, v. 26, n. esp., p. 129-139, 2014.

BOSI, A. P. A precarização do trabalho docente nas instituições de ensino superior do Brasil nesses últimos 25 anos. Educação e Sociedade, v. 28, n. 101, 1503-1523, 2007.

BRASIL. Câmara da Reforma do Estado. Plano diretor da reforma do aparelho do Estado. Brasília, 1995.

BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 11.091, de 12 de janeiro de 2005. Dispõe sobre a estruturação do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação, no âmbito das Instituições Federais de Ensino Superior vinculadas ao Ministério da Educação, e dá outras providências. Brasília: 2005.

BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 9.632, de 7 de maio de 1998. Dispõe sobre a extinção de cargos no âmbito da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, e dá outras providências. Brasília: 1998.

BRITES, R. M. R.; ABREU, A. M. M. Padrão de consumo de bebidas alcoólicas entre os trabalhadores e perfil socioeconô- mico. Acta Paulista de Enfermagem, v. 27, n. 2, p. 93-99, 2014.

BRITES, R. M. R.; ABREU, A. M. M.; PINTO, J. E. S. S. Prevalência de alcoolismo no perfil das aposentadorias por invalidez dentre trabalhadores de uma universidade federal. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 67, n. 3, p. 373-380, 2014.

CARAN, V. C. S.; FREITAS, F. C. T.; ALVES, L. A.; PEDRÃO, L. J.; ROBAZZI, M. L. C. Riscos ocupacionais psicossociais e sua repercussão na saúde de docentes universitários. Revista Enfermagem Uerj, v. 19, n. 2, p. 255-261, 2011.

CARDOSO JR., J. C. Crise e desregulação do trabalho no Brasil. Tempo Social, v. 13, n. 2, p. 31-59, 2001.

CASTEL, R. As armadilhas da exclusão. In: BELFIOREWANDERLEY, M.; BÓGUS, L.; YAZBEK, M. C. (Orgs.). Desigualdade e a questão social. São Paulo: Educ, 2008a. p. 21-54.

CASTEL, R. As transformações da questão social. In: BELFIORE-WANDERLEY, M.; BÓGUS, L.; YAZBEK, M. C. (Orgs.). Desigualdade e a questão social. São Paulo: EDUC, 2008b. p. 227-256.

CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 2013.

CHAUÍ, M. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Unifesp, 2001.

COSTA, E. C.; BACHION, M. M.; GODOY, L. F.; ABREU, L. O. Percepções sobre o estresse entre professores universitários. Revista Rene, v. 6, n. 3, p. 39-47, 2005.

COSTA, M. S. O sistema de relações de trabalho no Brasil: alguns traços históricos e sua precarização atual. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 20, n. 59, p. 111-131, 2005.

FRIGOTTO, G. Fundamentos científicos e técnicos da relação trabalho e educação no Brasil de hoje. In: LIMA, J. C.; NEVES, L. M. W. Fundamentos da educação escolar no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2006. p. 241-260.

GOMES, D. C.; SILVA, L. B.; SÓRIA, S. Condições e relações de trabalho no serviço público: o caso do governo Lula. Revista de Sociologia e Política, v. 20, n. 42, p. 167-181, 2012.

GUIMARÃES, L. A. M.; MARTINS, D. A.; GRUBITS, S.; CAETANO, D. Prevalência de transtornos mentais em trabalhadores de uma universidade pública do estado de São Paulo. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 31, n. 113, p. 07-18, 2006.

HOLZMANN, L. A. Tendências do trabalho precário no Brasil no início do século XXI. In: PICCININI, V.; HOLZMANN, L.; KIVACS, I.; GUIMARÃES, V. N. (Orgs.). O mosaico do trabalho na sociedade contemporânea: persistências e inovações. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006. p. 71-92.

JUNIOR, O. G. Sofrimento psíquico e trabalho intelectual. Cadernos de Psicologia do Trabalho, v. 13, n. 1, p.133-148, 2010.

LIMA, J. F.; RAIHER, A. P. Do neoliberalismo ao intervencionismo: apontamentos sobre a economia da América do Sul. In: SILVA, L. A. M., MANDALOZZO, S. S. N., MENDES, J. M. R. (Orgs.). Trabalho e Proteção Social. Ponta Grossa: Estúdio Texto, 2014. p. 173-186.

LIMA, K. R. S. O Banco Mundial e a educação superior brasileira na primeira década do novo século. Revista Katálysis, v. 14, n. 1, p. 86-94, 2011.

LIMA, M. F. E. M; LIMA-FILHO, D. O. Condições de trabalho e saúde do/a professor/a universitário/a. Ciências & Cognição, v. 14, n. 3, p. 62-82, 2009.

LIMA, K. R. S.; PEREIRA, L. D. Contra-reforma da educação superior brasileira: impactos na formação profissional em Serviço Social. Sociedade em Debate, v. 15, n. 1, p. 31-50, 2009.

LINHART, D. A desmedida do capital. São Paulo: Boitempo, 2007.

LUCAS, L. C. G.; LEHER, R. Aonde vai a educação pública brasileira? Educação & Sociedade, n. 77, p. 255-266, 2001.

MACIEL, A. L. S. Universidade em crise: uma travessia necessária para a formação em Serviço Social. 2006. 220 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.

MARCONI, N. A evolução do perfil da força de trabalho e das remunerações nos setores público e privado ao longo da década de 1990. Revista do Serviço Público, v. 54, n. 1, p. 09-45, 2003.

MELO, A. A. S.; SOUSA, F. B. A agenda do mercado e a educação no governo Temer. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, v. 9, n. 1, p. 25-36, 2017.

MIRANDA, L. C. S, PEREIRA, C. A., PASSOS, J. P. O estresse dos docentes de enfermagem de uma universidade pública. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental [Online], v. 1, n. 2, 2009.

MIRANZI, S. S. C.; GASPAR, A. A. C. S.; IWAMOTO, H. H.; MIRANZI, M. A. S.; DZIABAS, D. C. Acidentes de trabalho entre trabalhadores de uma universidade pública. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 33, n. 118, p. 40-47, 2008.

NARDI, H. C. Ética, trabalho e subjetividade: trajetórias de vida no contexto das transformações do capitalismo contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006.

NEVES, J. M. A face oculta da organização: a microfísica do poder na gestão do trabalho. Porto Alegre: Ed. UFRGS/Sulina, 2005.

PAULANI, L. M. O projeto neoliberal para a sociedade brasileira: sua dinâmica e seus impasses. In: LIMA, J. C.; NEVES, L. M. W. Fundamentos da educação escolar no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Fiocruz/EPSJV, 2006, p. 67-83.

ROSA, A. S. Histórias e trajetórias da terceirização na UFRGS. 2015. 95f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

SANTOS, B. S. Os processos de globalização. In: SANTOS, B. S. (Org.). A globalização e as Ciências Sociais. São Paulo: Cortez: 2002.

SANTOS, B. S. Globalizations. Theory Culture Society, v. 23, 393-399, 2006.

SAMPAIO, R. F.; SILVEIRA, A. M.; PARREIRA, V. F.; MAKINO, A. T.; MATEO, M. M. Análise das aposentadorias por incapacidade permanente entre os trabalhadores da Universidade Federal de Minas Gerais no período de 1966 a 1999. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 49, n. 1, p. 60-66, 2003.

SANTOS, R. A retomada do programa neoliberal no governo Temer e seus possíveis impactos sobre a auditoria fiscal do trabalho brasileira. Cadernos do Ceas, n. 239, p.295-812, 2016.

SARMENTO. T. F. Cargos em extinção: as marcas das mudanças do e no trabalho. 2016. 150 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e Institucional) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016.

SELIGMANN-SILVA, E. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez, 2011.

SPILKI, A.; TITTONI, J. O modo-indivíduo no serviço público: descartando ou descartável? Psicologia e Sociedade, v. 17, n. 3, p. 67-73, 2005.




DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1981-2582.2018.1.26209




Este periódico é membro do COPE (Committee on Publication Ethics) e adere aos seus princípios. http://www.publicationethics.org


Apoio Institucional – fev./dez. 2012 referente ao Edital MCTI/CNPq/MEC/CAPES Nº. 15/2011.




Educação

e-ISSN 1981-2582
ISSN-L 0101-465X


Avaliação do Qualis CAPES - 2014 
ÁREA CAPES - Educação
CLASSIFICAÇÃO - A2

E-mail: reveduc@pucrs.br



Licença Creative Commons
Exceto onde especificado diferentemente, a matéria publicada neste periódico é licenciada sob forma de uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

 

 

Políticas Editoriais das Revistas Científicas Brasileiras.

Disponibilidade para depósito: Azul

 

Copyright: © 2006-2017 EDIPUCRS