A teoria da carnavalização e o romance Ensaio sobre a cegueira – ou por que ler Saramago

Palavras-chave: Carnavalização, Dialogismo, Mikhail Bakhtin, Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

Resumo

Para uma leitura reflexiva da obra de José Saramago, sobretudo dos romances construídos a partir de Levantado do chão até Ensaio sobre a cegueira, a teoria da carnavalização (elemento presente nas raízes do gênero romanesco, segundo os estudos de Mikhail Bakhtin) constitui um instrumento indispensável. Nesses romances, a teoria marxista da linguagem, desenvolvida pelo filósofo russo, articula-se com os intuitos ideológicos da prosa do celebrado escritor português. O presente artigo tem por objetivo analisar a carnavalização em Ensaio sobre a cegueira: a história de um inédito surto epidêmico que leva uma população à cegueira, com exceção de uma mulher que, não por acaso, é esposa de um médico oftalmologista. Pela voz do narrador onisciente, característico de José Saramago, e pela perspectiva da mulher do médico, são narrados acontecimentos que, para um leitor mais perspicaz, apontam para uma segunda voz, para um diálogo não finalizante, que dá margem a uma segunda interpretação ainda mais reveladora, o que está relacionado ao conceito de dialogismo. Com a virada do século XXI, Bakhtin e a teoria da carnavalização parecem ter sido superados pelas correntes pós-modernas; no entanto, Saramago continua a ser marxista, o que justifica uma investigação sobre aspectos carnavalescos em sua obra.

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Biografia do Autor

Ana Maria Coelho Silva Wertheimer, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS, Brasil.

Doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, RS, Brasil; mestre em Linguística pela mesma instituição. Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, RS, Brasil.

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Publicado
2022-08-11
Como Citar
Wertheimer, A. M. C. S. (2022). A teoria da carnavalização e o romance Ensaio sobre a cegueira – ou por que ler Saramago. Navegações, 15(1), e43049. https://doi.org/10.15448/1983-4276.2022.1.43049