“Não há sol sem sombras”

Virtudes, impasses e limitações na pesquisa documental sobre a infância e sua educação em Portugal

Palavras-chave: infância, educação, estado da arte, fontes documentais, idade e designações das crianças.

Resumo

A visibilidade da infância nas sociedades ocidentais contemporâneas, igualmente sentida nas Ciências Sociais e, em particular, na pesquisa em educação, expressa-se numa crescente área de estudos dedicada à Educação da Infância, em que se sublinha a importância das pesquisas documentais para esclarecer e divulgar o “estado da arte” ou o “estado do conhecimento” produzido. Neste texto, as mudanças no pensamento e nas práticas relativas à infância e sua educação foram escrutinadas em fontes documentais como a produção académica (dissertações de mestrado e teses de doutoramento), e num acervo documental relativo à imprensa de educação e ensino. Cada uma dessas fontes fornece subsídios valiosos para a observação do estado do conhecimento. Acresce a exploração das estatísticas sobre as crianças como fonte documental, para apreender o léxico com que elas são referenciadas na observação estatística, e que extravasou para outros campos. Em conformidade, ao apresentarem um conjunto de pesquisas documentais em fontes que permitem identificar o “estado da arte” e as reflexões suscitadas, as autoras regressam a trabalhos por elas realizados acerca das crianças, da infância e da sua educação em Portugal, propondo-se: i) apresentar as diversas fontes observadas e debater as suas virtudes, impasses e limitações nesta modalidade de pesquisa; ii) interrogar o critério de busca – idade; e iii) explorar o repertório de designações encontradas para classificar e ordenar a diversidade das crianças e suas condições biossociais na infância, contribuindo assim para a (re)construção social da infância e da educação das crianças.

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Biografia do Autor

Manuela Ferreira, Universidade do Porto (FPCEUP), Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Porto, Portugal.

Doutora em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (UP), Portugal; professora associada da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE/FPCEUP), da Universidade do Porto, Portugal.

Cristina Rocha, Universidade do Porto (FPCEUP), Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Porto, Portugal.

Doutora em Ciências da Educação pela Universidade do Porto (UP), Portugal; professora associada da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE/FPCEUP), da Universidade do Porto, Portugal.

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Publicado
2020-12-31
Como Citar
Ferreira, M., & Rocha, C. (2020). “Não há sol sem sombras”: Virtudes, impasses e limitações na pesquisa documental sobre a infância e sua educação em Portugal. Educação, 43(3), e37489. https://doi.org/10.15448/1981-2582.2020.3.37489
Seção
Outros Temas