O drama e a coreografia social entre o 25 de Abril e o Que se Lixe a Troika
DOI:
https://doi.org/10.15448/1980-864X.2026.1.48936%20Palavras-chave:
Revolução, 25 de Abril, Dramaturgia Social, Repertório, AusteridadeResumo
No campo dos estudos de teatro e de performance, Ana Vujanović e Bojana Cvejić definem coreografia social enquanto ensaio e produção de um repertório de gestos e movimentos que reforçam uma ordem social; e drama social enquanto processo que colapsa uma ordem social e ensaia a sua reconfiguração. Recorrendo a material de diferentes arquivos, proponho nesta comunicação aplicar estes conceitos a dois momentos de drama social da história contemporânea portuguesa e perceber como falam entre si através de um repertório artístico. Se a revolução do 25 de Abril de 1974 alcançou vitórias institucionais que persistem até hoje – Serviço Nacional de Saúde será um dos exemplos –, a promessa de democracia económica e cultural não se confirmou. Desde então, o desfile anual do 25 de Abril celebra simultaneamente as vitórias da revolução e a revolução por alcançar, um protesto anual ordeiro e coreografado para exigir o drama social inalcançado. Esta coreografia do drama social definiu-se em torno de um repertório artístico socialmente reconhecido como representativo do 25 de Abril que, em 2012, no pico das políticas de austeridade, com as maiores manifestações não-coreografadas desde o 1.º de maio de 1974, recorreram à canção que sinalizou o início do golpe militar revolucionário – Grândola Vila Morena – para a mobilização e resistência contra a austeridade. O drama social coreografado do 25 de Abril definiu, assim, a coreografia do drama social do Que Se Lixe a Troika.
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