Heterodiscurso em Todos os nomes, de José Saramago
DOI:
https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.48271Palavras-chave:
Todos os nomes, José Saramago, heterodiscursoResumo
Este artigo dedica-se à análise do heterodiscurso romanesco (Bakhtin, 2015) em Todos os nomes, de José Saramago, com vistas a apontar os movimentos de refração do discurso alheio efetivados durante a narrativa, bem como a aparição do discurso existencialista, vinculado ao protagonista do romance, o Sr. José, funcionário da burocrática Conservatória de Registro Civil, que transgrede sua vida pacata e embarca em jornada vertiginosa em busca de uma mulher desconhecida. Para alcançar o objetivo proposto, analisaram-se os diferentes níveis de constituição do heterodiscurso da obra, com destaque para a voz do narrador, os gêneros discursivos e os estilos que compõem o texto. Foram evidenciadas, mais especificamente, a inserção da voz popular, a oposição ao discurso religioso e a discussão dos embates ideológicos entre grupos profissionais. Além disso, estabeleceram-se alguns predicados aos gêneros discursivos que constituem a narrativa, com atenção especial dedicada ao diário e à credencial. Considerou-se, ademais, a curiosa estrutura dialogal do romance, uma das marcas estilísticas de Saramago. A análise indicou a subversão de discursos sociais, assim como a utilização de estratégias de composição a aproximarem o texto de construções filosóficas e aforísticas, aparentadas ao formato escolhido para os diálogos. Produziu-se, nas intersecções entre essas diferentes estratégias, a conclusão de que o centro nevrálgico do romance saramaguiano é tanto o seu caráter existencialista na discussão da vida e da morte como o deslocamento dos discursos sociais, sendo o efeito de oposição gerado na aproximação entre a seriedade filosófica e o discurso deslocado/profanado fundamental à produção como um todo.
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