Políticas agrárias no recrutamento de imigrantes
o Oeste Paulista e a Pampa Úmida Argentina
DOI:
https://doi.org/10.15448/1980-864X.2025.1.46543Palavras-chave:
política agrária, política imigratória, São Paulo, Argentina, Século XIXResumo
Busca-se comparar os temas das políticas agrária e migratória desenvolvidas por duas significativas economias agroexportadoras latino-americanas na segunda metade do século XIX: a agropastoril na chamada Pampa Úmida argentina e a cafeeira no Oeste Paulista. Embora tratados pelas respectivas historiografias nacionais e regionais, uma comparação sistemática sobre como se articularam as políticas agrária e migratória nos dois casos ainda não mereceu a devida atenção. O esforço comparativo se justifica pela possibilidade de cada caso servir de contraponto ao outro, iluminando certos aspectos que de outro modo tenderiam a ser tomados como “naturais”. Como resultados, a pesquisa indica que, embora as duas áreas efetivamente tenham logrado se inserir como exportadoras de produtos agropecuários em mercados mundiais, nelas vicejaram políticas agrárias e de recrutamento de imigrantes movidas por objetivos totalmente discrepantes: no Oeste Paulista, “colonos” com transporte subsidiado para a grande fazenda cafeicultora, com limitado acesso à propriedade da terra; na Pampa Úmida, pelo menos inicialmente, oferecimento de terras como atrativo para a vinda e fixação do imigrante, praticada por agentes colonizadores públicos e privados que buscavam assim equilibrar a farta disponibilidade de terras com a crônica escassez de mão de obra para nelas trabalhar. Sugere-se, ainda, que tais diferenças produziram efeitos sociopolíticos duradouros nesses respectivos territórios, como o maior volume (no caso argentino) de contingentes atraídos, as origens regionais distintas e perfis distintos de qualificação dos imigrantes entre as duas regiões, bem como os efeitos de concentração de poder político local, advindos da manutenção da concentração fundiária no caso paulista.
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