Problemas na Escrita da História de Angola:

O caso dos escravos abrasileirados em Moçâmedes nos meados do século XIX

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15448/1984-6746.2026.1.50045

Palavras-chave:

História de Angola, Pernambuco, Moçâmedes, Escravos Abrasileirados, Mbali

Resumo

Este artigo examina as persistentes falhas metodológicas na historiografia de Angola através de uma crítica detalhada da afirmação amplamente repetida de que “escravos abrasileirados” acompanharam colonos luso-brasileiros a Moçâmedes em 1849-1850 e moldaram as origens do grupo social Mbali e da sua arte funerária. Utilizando este caso como exemplo de como não escrever a história de Angola, o autor reconstrói a genealogia desta narrativa e demonstra como hipóteses especulativas, citações incorrectas e provas inventadas adquiriram gradualmente o estatuto de consenso historiográfico. O estudo acompanha a afirmação desde publicações académicas recentes e jornalismo cultural, passando por plataformas digitais e obras secundárias anteriores, até à sua origem em afirmações sem fontes documentais de Gilberto Freyre na década de 1950, enraizadas na ideologia lusotropicalista. O autor mostra que fontes primárias importantes — principalmente um relato de viagem português anónimo de 1861 — foram sistematicamente deturpadas ou citadas falsamente. Uma análise cuidadosa dos registos de arquivo, incluindo listas de passageiros, registos de passaportes, correspondência colonial e censos populacionais, revela que apenas dois indivíduos escravizados chegaram de Pernambuco em 1849, e que apenas um deles poderia ser plausivelmente descrito como “abrasileirado”. O seu número e funções eram demasiado limitados para terem influenciado a cultura ou as práticas funerárias de Mbali. Em contraste, a força de trabalho no início de Moçâmedes era composta principalmente por africanos escravizados e ex-escravizados adquiridos em Angola, onde os preços dos escravizados eram significativamente mais baixos do que no Brasil. O artigo conclui que a narrativa dos “escravos abrasileirados” em Moçâmedes é uma construção historiográfica sustentada pela autoridade académica, pela repetição e pelo apelo ideológico.

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Biografia do Autor

José C. Curto, Departamento de História, York University, Canadá.

Senior Scholar no Departamento de História da York University (Canadá), é membro do Harriet Tubman Institute for Research on Africa and its Diasporas, da York University, integrante da Comissão Editorial da coleção «Negritudes» da Editora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), antigo editor associado da Portuguese Studies Review e co-editor da African Economic History, e Ex Presidente da Lusophone Studies Association e da Canadian Association of African Studies. Premiado em 2024 pela Canadian Association of African Studies por suas contribuições, suas publicações centram-se no comércio de álcool e de escravos, na demografia histórica e na escravatura em Angola: as mais recentes incluem “Escravos/as e suas Ocupações em Moçâmedes, 1854-1860”, Afro-Ásia 71 (2025): 1-26, e “Muxima (Angola) 1704: Settlers, Soldiers, Bonded Labourers and Local Potentates”, Portuguese Studies Review 33 (2025): 59-91.

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Publicado

2026-10-14

Como Citar

Curto, J. C. (2026). Problemas na Escrita da História de Angola:: O caso dos escravos abrasileirados em Moçâmedes nos meados do século XIX. Veritas (Porto Alegre), 71(1), e50045. https://doi.org/10.15448/1984-6746.2026.1.50045