Streaming de vídeo, dependência e mundo do trabalho
analisando relações de poder assimétricas entre Netflix e roteiristas no contexto brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.15448/1980-3729.2026.1.48733Palavras-chave:
Streaming de vídeo, Netflix, Séries brasileiras, Estratégias de localizaçãoResumo
Este artigo investiga como os serviços de streaming de vídeo estão transformando as práticas de trabalho na indústria audiovisual brasileira e quais são as bases econômicas, políticas e culturais que viabilizaram essas mudanças. Tendo em vista que a literatura sobre plataformização frequentemente destaca as infraestruturas tecnológicas como as principais responsáveis pelas relações assimétricas de poder, a pesquisa defende que o fenômeno não pode ser plenamente compreendido sem também considerar as bases locais que sustentam essa dependência. Para isso, trazemos como estudo de caso a inserção da Netflix no campo de produção de séries brasileiras, observando os desdobramentos desse processo para a etapa de roteirização de obras entre os anos de 2016 e 2025. A partir de uma metodologia que combina análise documental e entrevistas em profundidade com roteiristas, argumenta-se que a relação de dependência estabelecida pela Netflix é fruto tanto das opacas políticas internas do serviço, pautadas em uma assimetria informacional, quanto das crises que perpassaram o passado recente do Brasil. Nesse sentido, a falta de um poder de barganha observada pela classe também é resultado direto da diminuição dos mecanismos de fomento, do enfraquecimento institucional da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e da falta de regulamentação no setor.
Downloads
Referências
ABRA. ABRA entra no Ministério Público contra práticas abusivas de empresas de streaming. [S. l.]: ABRA, 9 set. 2022. Disponível em: https://www.abra.art.br/post/abra-entra-no-minist%C3%A9rio-p%C3%BAblico-contra-pr%C3%A1ticas-abusivas-de-empresas-de-streaming. Acesso em: 8 set. 2024.
ANCINE. Panorama do mercado de vídeo por demanda no Brasil 2023. Observatório Brasileiro do Cinema e Audiovisual, Brasília, DF, 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/panorama-vod-2023-1.pdf. Acesso em: 8 mar. 2024.
ARAÚJO, W. As narrativas sobre os algoritmos do Facebook: uma análise dos 10 anos do feed de notícias. 2017. 132 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Informação) – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/157660. Acesso em: 27 jul. 2026.
BEER, D. Metric power. London: Palgrave Macmillan, 2016. DOI: https://doi.org/10.1057/978-1-137-55649-3
BIANCHINI, M. A Netflix no campo das séries televisivas e a construção narrativa de Arrested Development. 2018. 220 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporânea) – Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia, 2018. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/28509. Acesso em: 27 jul. 2026.
BOURDIEU, P. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.
BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei n. 2.331, de 2022. Dispõe sobre a oferta de serviços de vídeo sob demanda ao mercado brasileiro e cria nova modalidade de Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (CONDECINE). Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2024. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2419744&filename=PL%202331/2022. Acesso em: 30 jul. 2026.
CALABRE, L.; TAVARES, T. O Fundo Setorial do Audiovisual e as políticas audiovisuais: interfaces com os estudos de cultura visual. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 34, p. 197-220, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S2178-149420210110. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/s2178-149420210110
CHO, H. The platformization of culture: Webtoon platforms and media ecology in Korea and beyond. The Journal of Asian Studies, [s. l.], v. 80, n. 1, p. 73-93, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1017/S0021911820002405. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1017/S0021911820002405
COULDRY, N.; HEPP, A. A construção mediada da realidade. São Leopoldo: UNISINOS, 2020.
DE MARCHI, L.; LADEIRA, J. M. Originais Netflix: um panorama da produção audiovisual da Netflix no Brasil 2016-2019. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 30, n. 1, p. e42989, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.15448/1980-3729.2023.1.42989. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.15448/1980-3729.2023.1.42989
GENESTRETI, G. Governo tira cineastas e chama grupos estrangeiros para Conselho de Cinema. Folha de S.Paulo, São Paulo, 4 dez. 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/12/governo-tira-cineastas-e-chama-grupos-estrangeiros-para-conselho-de-cinema.shtml. Acesso em: 8 mar. 2024.
HAVENS, T.; LOTZ, A. D.; TINIC, S. Critical Media Industry Studies: a research approach. Communication, Culture & Critique, [s. l.], v. 2, n. 2, p. 234-253, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1753-9137.2009.01037.x. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1753-9137.2009.01037.x
HESMONDHALGH, D. Bourdieu, the media and cultural production. Media, Culture & Society, [s. l.], v. 28, n. 2, p. 211-231, 2006. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0163443706061682. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1177/0163443706061682
HESMONDHALGH, D. The cultural industries. 3rd ed. London: SAGE, 2013.
IKEDA, M. As políticas públicas para o audiovisual: impasses da gestão da Ancine no governo Bolsonaro. Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação da Comunicação e da Cultura, São Cristóvão, v. 24, n. 1, p. 22-41, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.54786/revista%20eptic.v24i1.15558. Acesso em: 27 jul. 2026.
KANTAR IBOPE MEDIA. Inside Video 2025: a fluidez multidirecional do vídeo. São Paulo: Ibope, 8 abr. 2025. Disponível em: https://kantaribopemedia.com/conteudo/estudo/inside-video-2025/. Acesso em: 27 jul. 2026.
KIM, T. Cultural politics of Netflix in local contexts: a case of the Korean media industries. Media, Culture & Society, [s. l.], v. 44, n. 8, p. 1508-1522, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1177/01634437221111917. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1177/01634437221111917
LIMA, H. S. A lei da TV paga: impactos no mercado audiovisual. 2015. 149 f. Dissertação (Mestrado em Meios e Processos Audiovisuais) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.11606/D.27.2015.tde-26062015-162615. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.11606/D.27.2015.tde-26062015-162615
LOBATO, R. Netflix nations: the geography of digital distribution. New York: New York University Press, 2019. DOI: https://doi.org/10.18574/nyu/9781479895120.001.0001
LOTZ, A. D. The television will be revolutionized. New York: New York University Press, 2007.
LOTZ, A. D. Portals: a treatise on Internet-distributed television. Ann Arbor: Michigan Publishing, 2017. DOI: https://doi.org/10.3998/mpub.9699689
LOTZ, A. D. Netflix and streaming video: the business of subscriber-funded video on demand. Medford: Polity Press, 2022.
MAIA, G.; MENDES, A. Bolsonaro: “Não posso admitir filmes como Bruna Surfistinha com dinheiro público”. O Globo, Brasília, DF, 18 jul. 2019. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/bolsonaro-nao-posso-admitir-filmes-como-bruna-surfistinha-com-dinheiro-publico-23817326. Acesso em: 8 mar. 2024.
MAZUI, G. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a ANCINE”, diz Bolsonaro. G1, Brasília, DF, 19 jul. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml. Acesso em: 8 mar. 2024.
MONTARDO, S.; SILVA, C. Plataformização da produção cultural no YouTube: estudo de caso do canal 2quadrinhos. Revista GEMInIS, [s. l.], v. 14, n. 1, p. 149-170, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.53450/2179-1465.RG.2023v14i1p149-170. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.53450/2179-1465.RG.2023v14i1p149-170
MUNGIOLI, M. C.; IKEDA, F. Um estudo do catálogo das séries originais Globoplay no período de 2018 a 2022. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, [s. l.], v. 21, n. 41, p. 112-123, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.55738/alaic.v21i41.948. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.55738/alaic.v21i41.948
PENNER, T. A.; STRAUBHAAR, J. D. Títulos originais e licenciados com exclusividade no catálogo brasileiro da Netflix: um mapeamento dos países produtores. MATRIZes, São Paulo, v. 14, n. 1, p. 125-149, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v14i1p125-149. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v14i1p125-149
PICADO, B.; SOUZA, M. C. J. de. Dimensões da autoria e do estilo na ficção seriada televisiva. MATRIZes, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 53-77, 29 ago. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v12i2p53-77. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v12i2p53-77
POELL, T.; NIEBORG, D.; DUFFY, B. Platforms and cultural production. Cambridge: Polity Press, 2021.
RIOS, D. Diversidade e Dependência: Netflix e o campo de produção de séries no Brasil. 2024. 220 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Instituto de Arte e Comunicação Social, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2024. Disponível em: https://app.uff.br/riuff/handle/1/36212. Acesso em: 8 ago. 2026.
SANTIAGO, A. Reclamações nos bastidores de “Dona Beja”, da HBO Max. O Globo, 21 out. 2023. Disponível em: https://oglobo.globo.com/play/novelas/noticia/2023/10/21/reclamacoes-nos-bastidores-de-dona-beja-da-hbo-max-entenda.ghtml. Acesso em: 21 ago. 2025.
SHAW, L. Netflix Wants the World to Binge-Watch. Bloomberg, 12 jan. 2017. Disponível em: https://www.bloomberg.com/news/features/2017-01-12/netflix-wants-the-world-to-binge-watch. Acesso em: 8 mar. 2024.
SILVA, T. Racismo algorítmico em plataformas digitais: microagressões e discriminação em código. In: SILVA, T. Comunidades, algoritmos e ativismos digitais: olhares afrodiaspóricos. São Paulo: LiteraRUA, 2020. p. 120-137.
SOUZA, M. C. J. O papel das redes de televisão na construção do lugar do autor nas telenovelas brasileiras: notas metodológicas. In: SOUZA, M. C. J.; BARRETO, R. R. (org.). Bourdieu e os estudos de mídia: campo, trajetória e autoria. Salvador: EDUFBA, 2014. p. 35-60.
TIWARY, I. “OTT Is Exactly What TV Is Not”: structural adjustment and shifts in Indian scriptwriting. In: LOTZ, A. D.; LOBATO, R. (ed.). Streaming video: storytelling across borders. New York: New York University Press, 2023. p. 71-88. DOI: https://doi.org/10.18574/nyu/9781479816880.003.0007
VAN DIJCK, J.; POELL, T.; DE WAAL, M. The platform society: public values in a connective world. Oxford: Oxford University Press, 2018. DOI: https://doi.org/10.1093/oso/9780190889760.001.0001
VASCO, P. S. Projeto que regula serviços como Netflix deverá ser votado no primeiro semestre. Agência Senado, Brasília, DF, 23 dez. 2019. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/12/23/projeto-que-regula-servicos-como-netflix-devera-ser-votado-no-primeiro-semestre. Acesso em: 8 mar. 2024.
WAYNE, M. Netflix audience data, streaming industry discourse, and the emerging realities of ‘popular’ television. Media, Culture & Society, [s. l.], v. 44, n. 2, p. 193-209, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1177/01634437211022723. Acesso em: 27 jul. 2026. DOI: https://doi.org/10.1177/01634437211022723
WILLIAMS, R. Culture. London: Fontana, 1981. ZANON, P. Série de Pedro Cardoso na HBO Max é cancelada após briga nos bastidores. Notícias da TV, 28 out. 2022. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/series/serie-de-pedro-cardoso-na-hbo-max-e-cancelada-apos-briga-nos-bastidores-91696. Acesso em: 8 mar. 2024.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Daniel Rios

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.




