A voz-práxis estético-literária indígena como ativismo e militância: algumas reflexões a partir da literatura indígena brasileira atual

  • Leno Francisco Danner Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
  • Julie Stéfane Dorrico Peres Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
  • Fernando Danner Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Palavras-chave: Literatura indígena, Literatura de minorias, Comunidade-Indivíduo, Ativismo, Militância.

Resumo

Defendemos que a voz-práxis estético-literária das minorias e, no caso, do/as intelectuais ou escritores/as indígenas é marcada por quatro características fundamentais que lhe definem a constituição, o sentido e a vinculação epistemológico-políticos: parte da condição política e politizante, carnal e vinculada das e como minorias, que são uma construção política, tanto em termos de singularidade antropológica quanto sob a forma de exclusão, silenciamento, marginalização e violência que sofrem; possui uma ligação e uma dependência inextricáveis entre comunidade grupo-tradição e indivíduo, fundando e dinamizando um eu-nós lírico-político que não dissocia pertença à comunidade e ao grupo relativamente à experiência individual, recusando, com isso, a perspectiva de uma subjetividade absoluta-desvinculada e voyeurista-apolítica; vai da afirmação da tradição comunitária e da singularidade antropológica à crítica do presente, a tradição e a pertença comunitárias e a singularidade antropológica como crítica do presente; e institui o ativismo e a militância como seu núcleo, sentido e direcionamento, de modo a afirmar-se como uma vozpráxis política comprometida com a defesa e a promoção do grupo de que faz parte. Em nossa proposta, que está embasada tanto na interpretação de escritores/as indígenas brasileiros/as quanto na apropriação do aparato teórico produzido em termos de estudos literários e culturais póscoloniais, e que tem por base uma análise bibliográfica desse arcabouço teórico, argumentaremos acerca da importância de se correlacionar a produção estético-literária das minorias (e, no caso, dos/as indígenas) com e como crítica do presente e politização radical, sob a forma de ativismo, de militância e de engajamento, seja como condição para o entendimento de suas especificidades e novidades, seja como forma de sua vinculação aos debates estéticos, epistemológicos e políticos em termos de esfera pública, uma vez que esses/as escritores/as de minorias (e, no caso, indígenas) objetivam exatamente politizar e publicizar a história, a situação e as reivindicações de suas comunidades e de seus grupos por meio da arte-literatura.

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Biografia do Autor

Leno Francisco Danner, Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Doutor em Filosofia (PUC-RS). Professor de Filosofia e de Sociologia na Fundação Universidade Federal de Rondônia.
Julie Stéfane Dorrico Peres, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Doutoranda em Teoria Literária pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 

Mestre em Estudos Literários e Graduada em Letras Português e suas respectivas Literaturas pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

Fernando Danner, Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Doutor em Filosofia (PUCRS). Professor de Filosofia no Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

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Publicado
2018-12-19
Como Citar
Danner, L. F., Dorrico Peres, J. S., & Danner, F. (2018). A voz-práxis estético-literária indígena como ativismo e militância: algumas reflexões a partir da literatura indígena brasileira atual. Letrônica, 11(3), 375-396. https://doi.org/10.15448/1984-4301.2018.3.30811