Interrogações sobre o lugar do sujeito no delineamento de uma educação especializada

  • Mônica Maria Farid Rahme Universidade de São Paulo, Universidade Federal de Ouro Preto.
  • Angela Maria Resende Vorcaro Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais.
Palavras-chave: Educação especial. Sujeito. Psicanálise.

Resumo

Neste artigo, buscou-se indicar alguns movimentos históricos e sociais que foram relevantes para a constituição da educação especializada e que possibilitaram o delineamento de um campo de intervenção em relação à infância distinguida como anormal, tanto no que diz respeito ao surgimento dos incipientes sistemas de ensino quanto à formalização de espaços destinados à abordagem clínica voltada para esse grupo. Nesse contexto, procurouse evidenciar a emergência da figura do especialista, que passa a intervir de modo decisivo nos espaços institucionais a partir de saberes, por vezes tomados como verdade, sobre esses sujeitos. A noção de discurso como forma de estabelecimento do laço social permite formalizar o modo como esses saberes produzem um lugar institucional e social para as pessoas consideradas diferentes, e discutir o quanto o percurso da educação especializada é marcado por uma alternância de significantes-mestres que tendem a cristalizar verdades sobre um sujeito que não é, em sua totalidade, passível de definição.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

BERCHERIE, Paul. A clínica psiquiátrica da criança: Estudo histórico. In: CIRINO, Oscar. Psicanálise e psiquiatria com crianças: desenvolvimento ou estrutura. Belo Horizonte: Editora autêntica, 2001[1983]. p. 127-144.

BINET, Alfred; SIMON, Théodore. Les enfants anormaux (1907). Paris: L’Harmattan, 2007.

CARVALHO, Rosita Edler. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. 4. ed. Porto Alegre: Mediação, 2006.

CASTEL, Robert. La gestion des risques: de l’anti-psychiatrie à l’après-psychanalyse. Paris: Les Éditions de Minuit, 1981.

CLAVREUL, Jean. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. São Paulo: Brasiliense, 1983.

COUTINHO, Ana Beatriz Coutinho. Consequências éticas da leitura psicanalítica dos quatro discursos para a educação inclusiva. 2013. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013.

GARDOU, Charles. A educação especial. In: AVANZINI, Guy (Org.). A pedagogia atual. São Paulo: Loyola, 1999. p. 183-205.

GATEAUX-MENNECIER, Jacqueline. Les sciences humaines et la segmentation du champ de l’enfance inadaptée. In: CHAUVIÈRE, Michel; PLAISANCE, Eric (sous la direction de). L’école face aux handicaps: éducation spéciale ou éducation intégrative? Paris: PUF, 2000. p. 31-52.

GUÉGUEN, Pierre-Gilles. Nous sommes tous désinsérés. Lettre Mensuelle, Paris, n. 277, p. 19-21, avril 2009.

ITARD, Jean. Relatório I: Da educação de um homem selvagem ou dos primeiros desenvolvimentos físicos e morais do jovem Selvagem do Aveyron (1801). In: BANKS-LEITE, Luci; GALVÃO, Izabel (Org.). A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard. São Paulo: Cortez Editora, 2000. p. 123-177.

ITARD, Jean. Relatório II: Relatório feito a Sua Excelência o Ministro do Interior sobre os novos desenvolvimentos e o estado atual do Selvagem do Aveyron (1801). In: BANKS-LEITE, Luci; GALVÃO, Izabel (Org.). A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard. São Paulo: Cortez Editora, 2000. p. 178-229.

KUPFER, Maria Cristina Machado. Educação para o futuro: Psicanálise e Educação. São Paulo: Escuta, 2000.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-1970].

LAJONQUIÉRE, Leandro de. Infância e ilusão (psico)pedagógica: Escritos de Psicanálise e Educação. Petrópolis: Vozes, 1999.

MANNONI, Maud. Educação impossível. Rio de Janeiro:Francisco Alves, 1977.

MARQUEZAN, Reinoldo. O discurso da legislação sobre o sujeito deficiente. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 14, n. 3, p. 463-478. dez. 2008. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-65382008000300009

MAZZOTTA, Marcos José da Silveira. Educação especial no Brasil: História e políticas públicas. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

MOYSÉS, Maria Aparecida. A medicalização na educação infantil e no ensino fundamental e as políticas de formação docente: a medicalização do não-aprender-na-escola e a invenção da infância anormal. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 31., 2008, Caxambu. Constituição brasileira, direitos humanos e educação (CD ROM). Caxambu: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, 2008. p. 1-25.

NABUCO, Maria Eugênia. Práticas institucionais e inclusão escolar. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 40, n. 139, p. 63-74, jan./abr. 2010. http://dx.doi.org/10.1590/S0100-15742010000100004

ORMELEZI, Eliana Maria. Inclusão educacional e escolar da criança cega congênita com problemas na constituição subjetiva e no desenvolvimento global: uma leitura psicanalítica em estudo de caso. 2006. 412 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

PLAISANCE. Éric. Denominações da infância: do anormal ao deficiente. Educação e Sociedade, v. 26, n. 91, p. 405-417, maio/ago. 2005.

PLAISANCE, Éric. Educação especial. In: VAN ZANTEN, Agnés (Coord.). Dicionário de educação. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 267-272.

PRIETO, Rosângela Gavioli. Atendimento escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: um olhar sobre as políticas públicas de educação no Brasil. In: ARANTES, Valéria Amorim (Org.). Inclusão escolar: Pontos e contrapontos. São Paulo: Summus, 2006. p. 31-73.

SCHNEIDER, Cornelia. L’intégration scolaire des enfants avec ‘besoins éducatifs particuliers’ en France et en Allemagne: les relations entre pairs. 2006. 353 f. Thèse (Doctorat en Sciences de l’Éducation) – Faculté des Sciences Humaines, Université René Descartes, Paris, 2006.

STIKER, Henri-Jacques. Corps infirmes et societés – essais d’anthropologie historique. 3. édition. Paris: Dumont, 2005.

VIAL, Monique. Éducation des arriérés en France (début du XXe siècle). In: GUESLIN, André; STIKER, Henri-Jacques (sous la direction d’). Handicaps, pauvreté et exclusion dans la France du XIXe siècle. Paris: Les Éditions de l’Atelier/ Éditions Ouvrières, 2003. p. 205-218.

VOLTOLINI, Rinaldo. Psicanálise e inclusão escolar: direito ou sintoma? Estilos da Clínica: Revista sobre a Infância com Problemas, v. IX, n. 16, p. 92-101, 2004.

ŽIŽEK, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

Publicado
2015-11-06
Como Citar
Rahme, M. M. F., & Vorcaro, A. M. R. (2015). Interrogações sobre o lugar do sujeito no delineamento de uma educação especializada. Educação, 38(2), 177-184. https://doi.org/10.15448/1981-2582.2015.2.20043
Seção
Dossiê - Educação Especial e Psicanálise