Espondilodiscite em idade pediátrica – uma doença rara, um diagnóstico difícil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15448/1980-6108.2022.1.41086

Palavras-chave:

espondilodiscite, infeção osteoarticular, pediatria

Resumo

Introdução e objetivo: a espondilodiscite é a infeção que atinge o disco intervertebral e as vértebras contíguas e representa dois a quatro % do total das infeções osteoarticulares em idade pediátrica. O agente patogénico é identificado em cerca de metade dos casos, sendo o Staphylococcus aureus o mais frequentemente isolado. Estudos recentes demonstram que entre os seis meses e os quatro anos a Kingella kingae tem um papel etiológico importante. O objetivo da exposição deste caso clínico foi chamar atenção para esta patologia rara cujo diagnóstico é difícil e exige um elevado nível de suspeição.
Descrição do caso: criança de 16 meses, sexo masculino, com antecedentes de obstipação, é trazida múltiplas vezes à Urgência Pediátrica por quadro com mais de um mês de evolução de irritabilidade persistente, dor abdominal e recusa da marcha de agravamento progressivo. Na segunda vinda à Urgência Pediátrica apresentava dorsolombalgia à palpação da coluna dorsolombar e diminuição da lordose lombar, o que motivou a realização de avaliação analítica, sumária de urina, ecografia renal e vesical e radiografia dorsolombar sem alterações. Na terceira vinda à Urgência Pediátrica foi decidido internamento e solicitada ressonância magnética nuclear dorsolombar e cintigrafia óssea que revelaram espondilodiscite em D7-D8. Parâmetros analíticos sem alterações valorizáveis, exceto discreta elevação da velocidade de sedimentação. Hemoculturas e restante estudo etiológico negativo. Iniciou terapêutica endovenosa com cefuroxime e flucloxacilina, com melhoria progressiva das queixas álgicas. Aquando da alta, assintomático, mantendo flucloxacilina oral até completar seis semanas de tratamento. Reavaliado posteriormente, encontrando-se assintomático, com um exame físico, reavaliação analítica e radiografia dorsolombar sem alterações.
Conclusões: a espondilodiscite é uma identidade de difícil diagnóstico, especialmente na criança, devido à sua raridade, clínica inespecífica, impossibilidade de as crianças verbalizarem os seus sintomas e aos sinais radiológicos tardios, requerendo um alto índice de suspeição. O intervalo médio de tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico é de três semanas a três meses. A ressonância magnética é o exame de escolha. As hemoculturas são, muitas vezes, negativas. O pilar do tratamento é a antibioterapia por várias semanas, mas a sua escolha e duração são controversas. O tratamento inadequado pode originar dor crônica, sequelas ortopédicas graves e complicações neurológicas devastadoras. Quando atempada e adequadamente tratada, a maioria dos casos apresenta uma evolução clínica benigna e autolimitada.

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Biografia do Autor

Madalena Meira Nisa, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Mestrado Integrado em Medicina pela Nova Medical School, Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Interna de Formação Específica de Pediatria no Centro Hospitalar Tondela-Viseu (EPE/ CHTV), em Viseu, Portugal.

Jessica Sousa, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina, pela Univerdade de Lisboa. Interna de Formação Específica de Pediatria no Centro Hospitalar Tondela-Viseu (EPE/CHTV), em Viseu, Portugal.

Joana Pimenta, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Assistente em Pediatria no Centro Hospitalar Tondela-Viseu (EPE/ CHTV), em Viseu, Portugal. Pós-graduada em Nutrição e Metabolismo em Pediatria pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra. Pós-graduada em Cuidados Paliativos Pediátricos pela Universidade Católica Portuguesa.

Joaquina Antunes, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Assistente em Pediatria no Centro Hospitalar Tondela-Viseu (EPE/ CHTV). Mestre em Urgências Pediátricas, 2ª Edição, pela Universidade Católica de Valência, Espanha.

Dora Gomes, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Assistente em Pediatria no Centro Hospitalar Tondela-Viseu (EPE/CHTV), em Viseu, Portugal.

Cristina Faria, Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV), Serviço de Pediatria, Viseu, Portugal.

Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Assistente Graduada de Pediatria no Serviço de Pediatria do Centro Hospitalar Tondela Viseu (CHTV), em Viseu, Portugal.

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Publicado

2022-05-16

Como Citar

Nisa, M. M., Sousa, J., Pimenta, J., Antunes, J., Gomes, D., & Faria, C. (2022). Espondilodiscite em idade pediátrica – uma doença rara, um diagnóstico difícil. Scientia Medica, 32(1), e41086. https://doi.org/10.15448/1980-6108.2022.1.41086