O chicote do discurso

Um olhar bakhtiniano para a institucionalização do racismo no Brasil contemporâneo

Palavras-chave: Discurso racista, Círculo de Bakhtin, Fundação Palmares, Racismo institucional

Resumo

Considerando o recrudescimento de discursos com contornos conservadores e intolerantes na atmosfera sociopolítica do Brasil pós-2018, este artigo tem por objetivo analisar a maneira como o racismo se configura no discurso institucional atual. Ancorando-se nos pressupostos teórico-metodológicos bakhtinianos, foram mobilizadas as noções de palavra e contrapalavra, tendo como objeto de escrutínio um projeto de dizer do atual presidente da Fundação Palmares, instituição atrelada ao poder executivo federal. Visto que o discurso é uma prática social que revela a maneira como a sociedade de uma determinada época se configura ideologicamente, durante o movimento analítico, observou-se que o projeto enunciativo analisado sugere a proeminência de uma visão institucional racista, marcada explicitamente pelo uso discursivo de palavras ofensivas e violentas. Em contrapartida, percebeu-se que a comunidade negra nacional, mesmo vilipendiada institucionalmente, demostra, pelo indício fenomênico da contrapalavra, um arquétipo identitário permeado pelo campo semântico-axiológico da resistência.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Cristiano Sandim Paschoal, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS, Brasil

Doutorando em Letras/ Linguística, vinculado à linha de pesquisa Teorias e Usos da Linguagem, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, RS, Brasil. Bolsista CNPq. Mestre em Linguística pela mesma instituição.

Referências

ARGUMEDO, Alcira. Los silencios y las voces en America Latina: notas sobre el pensamento nacional y popular. Buenos Aires: Ediciones del Pensamiento Nacional, 1993.

ARISTÓTELES. Política. Tradução de António Campelo Amaral, Carlos Gomes. Vega, 1978.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2017a.

BAKHTIN, Mikhail. O freudismo: um esboço crítico. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva, 2017b.

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016.

BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução de Valdemir Miotello, Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro e João Editores, 2010.

BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I: a estilística. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015.

CAMARGO. Organizações e lideranças religiosas pedem ação contra Sergio Camargo por racismo. Jornalismo TV Cultura. Youtube. [S. I.], 04 jun. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t0zZ8gNVzjY. Acesso em: 26 abr. 2021.

COSTA, Marcos. A história do Brasil para quem tem pressa. Rio de Janeiro: Valentina, 2016.

CRUZ, Carolina. Movimento negro protesta em Brasília e pede saída do presidente da Fundação Palmares. G1, Distrito Federal, 5 jun. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/06/05/movimento-negro-protesta-em-brasilia-e-pede-saida-do-presidente-da-fundacao-palmares.ghtml. Acesso em: 1 jan. 2021.

FERREIRA, Afonso. Mãe de santo xingada por presidente da Fundação Palmares presta depoimento ao Ministério Público do DF. G1, Distrito Federal, 4 jun. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/06/04/mae-de-santo-xingada-por-presidente-da-fundacao-palmares-presta-depoimento-ao-ministerio-publico-do-df.ghtml. Acesso em: 14 fev. 2021.

GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa... São Paulo: UCPA, Diáspora africana, 2018.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo. São Paulo: Edição Popular, 1963.

MILANEZ, Felipe et al. Existência e Diferença: O Racismo Contra os Povos Indígenas. Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 2161-2181, 2019.

PASCHOAL, Cristiano Sandim. O novo tom axiológico da expressão “cidadão de bem”: refrações semânticas e indícios de estratificação da sociedade brasileira. Memento, [Três Corações], v. 11, n. 1, jan./jun. 2020.

PASCHOAL, Cristiano Sandim. A malha valorativo-discursiva da atual extrema direita brasileira: Ecos nazifascistas e vestígios da política do “nós” versus “eles. 2021. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2021.

PAULA, Luciane de; LUCIANO, José Antonio Rodrigues. A tridimensionalidade verbivocovisual da linguagem bakhtiniana. Linha D’Água (Online), São Paulo, v. 33, n. 3, p. 105-134, set./dez. 2020.

PAULA, Luciane de; LOPES, Ana Carolina Siani. A Eugenia de Bolsonaro: leitura bakhtiniana de um projeto de holocausto à brasileira. Revista Linguasagem, São Carlos, v. 35, p. 35-76, set. 2020.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.

SCHWARCZ, Lilia Mortiz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.

STELLA, Paulo R. de Camargo. Palavra. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceitos-chave. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2018.

VOLÓCHINOV, Valentin. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Sheila Grillo, Ekaterina Vólkova Américo. São Paulo: Editora 34, 2017.

VOLÓCHINOV, Valentin. A palavra na vida e na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Tradução de Sheila Grillo, Ekaterina Vólkova. Américo. São Paulo: Editora 34, 2019.

Publicado
2021-12-31
Como Citar
Paschoal, C. S. (2021). O chicote do discurso: Um olhar bakhtiniano para a institucionalização do racismo no Brasil contemporâneo. Letrônica, 14(sup.), e42561. https://doi.org/10.15448/1984-4301.2021.s.42561