Escrever à mão versus digitar

Implicações cognitivas no processo de alfabetização

Palavras-chave: Cognição, Escrita à mão, Alfabetização, Reconhecimento visual, Memória procedural

Resumo

Com as novas tecnologias de escrita, a caneta e o papel estão sendo substituídos pelo teclado ou pela touch screen. Se os adultos escolarizados pouco escrevem à mão, é importante continuar ensinando as crianças pequenas a manusearem lápis e caneta? O presente trabalho busca compreender quais são as implicações cognitivas da aprendizagem da escrita à mão em oposição à digitação em teclado ou em tecnologia touch. Para isso, foi realizada uma pesquisa bibliográfica integrativa a partir das contribuições de Longcamp et al. (2005, 2008) e demais pesquisadores que investigam os processos envolvidos na aprendizagem da leitura e a capacidade de o ser humano adaptar-se à escrita e, posteriormente, à digitalização, em virtude de sua plasticidade cerebral (DEHAENE, 2010; CARR, 2012; KOLINSKY, 2015). Os estudos indicam que a escrita à mão permite a formação de memórias procedurais relacionadas ao traçado das letras (IZQUIERDO, 2018), contribuindo para o reconhecimento visual das letras, bem como para a superação da fase de espelhamento (SCLIAR-CABRAL, 2013). O reconhecimento visual das letras combinado com a consciência fonêmica é a primeira etapa a ser consolidada para chegar à leitura das palavras e, posteriormente, à compreensão. Uma vez que essa condição inicial seja desfavorecida, o processo de aprendizagem da leitura torna-se mais lento e, muitas vezes, deficitário. Dessa forma, a pesquisa bibliográfica aqui conduzida sugere que a digitação não deve substituir a escrita à mão na aprendizagem inicial da leitura e da escrita pelas crianças.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Kadine Saraiva de Carvalho, Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

Mestranda em Letras no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Bolsista CNPq

Rosângela Gabriel, Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

Doutora em Letras/Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre, RS, Brasil. Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Bolsista Produtividade em Pesquisa CNPq

Referências

BAJARD, Elie. Ler e dizer: compreensão e comunicação do texto escrito. São Paulo: Cortez Editora, 1994.

CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a Internet está fazendo com os nossos cérebros. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

CHANGEUX, Jean-Pierre. Prefácio. In: DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Tradução de Leonor Scliar-Cabral. Porto Alegre: Penso, 2012. p. 9-14.

CULKIN, John M. A schoolman’s guide to Marshall McLuhan. The Saturday Review, [s. l.], p. 51-53, 70-72, 1967.

DEHAENE, Stanislas. Apprendre a lire: des sciences cognitives à la salle de classe. Paris: Odile Jacob, 2011.

DEHAENE, Stanislas. A aprendizagem da leitura modifica as redes corticais da visão e da linguagem verbal. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 48, n. 1, p. 148-152, 2013.

DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica nossa capacidade de ler. Tradução de Leonor Scliar-Cabral. Porto Alegre: Penso, 2012.

DEHAENE, Stanislas; PEGADO, Felipe.; BRAGA, Lucia W.; VENTURA, Paulo; FILHO, Gilberto Nunes; JOBERT, Antoinette; DEHAENE-LAMBERTZ, Ghislaine; KOLINSKY, Régine; MORAIS, José; COHEN, Laurent. How learning to read changes the cortical networks for vision and language. Science, [s. l.], v. 330, p. 1359-1364, 2010. https://doi.org/10.1126/science.1194140

DOMINGOS, Ana Cláudia Munari. Hiperleitura e leituras: pensando a formação de hiperleitores. In: RAABE, André Luís Alice; GOMES, Alex Sandro; BITTENCOURT, Ig Ibert; PONTUAL, Taciana (org.). Educação criativa: multiplicando experiências para a aprendizagem. Recife: Pipa Comunicação, 2016. p. 109-157.

GABRIEL, Rosângela; MORAIS, José; KOLINSKY, Régine. A aprendizagem da leitura e suas implicações sobre a memória e cognição. Ilha do Desterro, Florianópolis, v. 69, n. 1, p. 61-78, jan/abr. 2016a. https://doi.org/10.5007/2175-8026.2016v69n1p61

GABRIEL, Rosângela; KOLINSKY, Régine; MORAIS, José. O milagre da leitura: de sinais escritos a imagens imortais. DELTA, [s. l.], v. 32, p. 919-951, 2016b. https://doi.org/10.1590/0102-44508205042893915

GLÓRIA, Julianna Silva. A alfabetização e sua relação com o uso do computador: o suporte digital como mais um instrumento de alfabetização na escola. Texto Livre: Linguagem e Tecnologia, [s. l.], v. 5, n. 2, p. 61-70, 2012. https://doi.org/10.17851/1983-3652.5.2.61-70

ISAACSON, Walter. Os inovadores: uma biografia da revolução digital. Tradução de Berilo Vargas, Luciano Vieria Machado e Pedro Maria Soares. São Paulo: Companhia da Letras, 2014.

IZQUIERDO, Ivan. Memória. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

KOLINSKY, Régine. How Learning to Read Influences Language and Cognition. In: POLLATSEK, A.; TREIMAN, R. The Oxford Handbook of Reading. Oxford: Oxford University Press, 2015. p. 377-393.

LONGCAMP, Marieke; ZERBATO-POUDOU, Marie-Thérèse; VELAY, Jean-Luc. The influence of writing practice on letter recognition in preschool children: A comparison between handwriting and typing. Acta Psychologica, [s. l.], 119, p. 67–79, 2005. https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2004.10.019

LONGCAMP, Marieke; BOUCARD, Céline; GILHODES, Jean-Claude; ANTON, Jean-Luc; ROTH, Muriel; NAZARIAN, Bruno; VELAY, Jean-Luc. Learning through hand-or typewriting influences visual recognition of new graphic shapes: Behavioral and functional imaging evidence. Journal of cognitive neuroscience, [s. l.], v. 20, n. 5, p. 802 815, 2008. https://doi.org/10.1162/jocn.2008.20504

MANGEN, Anne; VELAY, Jean-Luc. Digitizing literacy: reflections on the haptics of writing. In: ZADEH, Mehrdad Hosseini. Advances in haptics. [s. l.: s. n.], 2010. p. 385-401. https://doi.org/10.5772/8710

MANGEN, Anne; ANDA, Liss G.; OXBOROUGH, Gunn H.; BRØNNICK, Kolbjørn. Handwriting versus keyboard writing: effect on word recall. Journal of writing research, [s. l.], v. 7, n. 2, 2015. https://doi.org/10.17239/jowr-2015.07.02.01

MORAIS, José. Criar leitores: para professores e educadores. Barueri: Manole, 2013.

MUELLER, Pam A.; OPPENHEIMER, Daniel M. The pen is mightier than the keyboard: Advantages of longhand over laptop note taking. Psychological science, [s. l.], v. 25, n. 6, p. 1159-1168, 2014.

NYÍRI, J. C. Thinking with a Word Processor. In: CASATI, Roberto; SMITH, Barry; WHITE, Graham (org.). Philosophy and the Cognitive Sciences: proceedings of the 16th International Wittgenstein Symposium, 15 - 22 August 1993, Kirchberg am Wechsel (Austria). Viena: Holder-Pichler-Tempsky, 1994. p. 63-74.

OLSON, David R. O mundo no papel: as implicações conceituais e cognitivas da leitura e da escrita. São Paulo: Ática, 1997.

PHREE: conheça a caneta digital que pode ser usada em qualquer superfície. Canaltech, 20 maio 2015. Disponível em:https://canaltech.com.br/gadgets/phree-conheca-a-caneta-digital-que-pode-ser-usada-em-qualquer-superficie-41737/. Acesso em: 21 maio 2019.

POERSCH, José Marcellino. O que a Lingüística tem a ver com o teclado de microcomputadores. Letras de Hoje, Porto Alegre, v.25, n.4, p. 117-170, dez. 1990.

SCLIAR-CABRAL, Leonor. Avanços das neurociências para a alfabetização e a leitura. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 48, n. 3, p. 277-282, jul/set, 2013.

SOUSA, Lucilene Bender de; GABRIEL, Rosângela. Aprendendo palavras através da leitura. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2011.

SOUZA, Marcela Tavares de; SILVA, Michelly Dias da; CARVALHO, Rachel de. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein (São Paulo), São Paulo, v. 8, n. 1, p. 102-106, mar. 2010. https://doi.org/10.1590/s1679-45082010rw1134

Publicado
2020-10-08
Como Citar
Saraiva de Carvalho, K., & Gabriel, R. (2020). Escrever à mão versus digitar: Implicações cognitivas no processo de alfabetização. Letrônica, 13(4), e37514. https://doi.org/10.15448/1984-4301.2020.4.37514