Da prisão do mundo ao mundo da prisão
a descoberta de si e do outro em narrativas do confinamento
DOI:
https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.48220Palavras-chave:
escrita do cárcere, autoconhecimento, aprendizado do mundoResumo
O trabalho pretende apresentar autores representativos da escrita do cárcere, série literária que marcou o sistema editorial brasileiro no início do século XXI. Trata-se de Luís Alberto Mendes (Memórias de um sobrevivente, 2001), Jocenir (Diário de um detento: o livro, 2001), Humberto Rodrigues (Vidas do Carandiru: histórias reais, 2002), e André Du Rap (Sobrevivente André Du Rap (do massacre do Carandiru), 2002). Junto à denúncia do horror vivido em instituições do Estado, nas quais a violação dos direitos humanos é cotidiana, identifico nas diferentes vozes autorais que narram desde a prisão na cena contemporânea a presença de um aprendizado relacionado à elaboração da experiência do confinamento através da sua narração. De um modo particular em cada uma das obras referidas, a margem prisional constitui “uma geografia geral da privação, mas também do resgate” (Francavilla, 2012). O cárcere é entendido neste estudo, portanto, como locus de resistência criadora àqueles e àquelas que se constroem subjetivamente “pela pena, ‘pena’ entendida aqui no duplo sentido de penalidade e instrumento de escrita” (Penna, 2013), o que aponta também para a precariedade de sua socialização anterior à detenção. Finalmente, remonto a Graciliano Ramos, autor de Memórias do cárcere (originalmente publicado em 1953), que ficcionaliza a experiência de uma espécie diversa de enclausuramento, imposto àquele que já era um reconhecido escritor das letras nacionais quando de sua detenção por motivos políticos. Ainda assim, a narrativa apresenta uma descoberta, que diz respeito ao mundo dos oprimidos, que o autor comunista percebe ser-lhe pouco conhecido (ou desconhecido) até o confinamento na prisão.
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Referências
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