Canudos e a mídia republicana de fim de século

os gestos de leitura de Euclides da Cunha e Machado de Assis

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.48172

Palavras-chave:

teorias da leitura, comunidade leitora, imprensa e telégrafos, Antonio Conselheiro, Canudos

Resumo

O artigo retoma princípios norteadores da Estética da Recepção, objetivando destacar as ideias de leitura como processo criativo que depende da imaginação do leitor e de horizonte de expectativas como conjunto de referências prévias que orientam os sentidos atribuídos aos textos. Em seguida, aborda o ponto de vista de Chartier, crítico das teorias fenomenológicas e propositor das ideias de comunidades leitoras, paradigmas e gestos de leitura. Com base em tais referenciais teóricos, objetiva-se delinear o paradigma de leitura republicano e patriótico das comunidades letradas que se instruíam sobre Canudos através das notícias difundidas pela principal mídia de fins do século XIX: a imprensa e os telégrafos. Individuam-se, então, dois gestos de leitura sobre o movimento liderado por Antonio Conselheiro: o de Euclides da Cunha e o de Machado de Assis. Observa-se que enquanto o último, desconfiando do que lê, diverge dos paradigmas interpretativos da elite letrada, o primeiro se alinha a eles, reproduzindo muitos dos estereótipos atribuídos a Antonio Conselheiro e seus seguidores. Conclui-se que, em Os sertões, o paradigma de leitura republicano é desmentido pela experiência da realidade de Canudos, mas o paradigma de leitura cientificista é mantido como lente interpretativa para o fenômeno social testemunhado. Observa-se que o movimento popular liderado por Antonio Conselheiro foi decodificado por uma comunidade leitora urbana, com pouca ou nenhuma experiência da vida nos sertões, mas que ia formando um paradigma de leitura preconceituoso acerca do que ocorria nas partes desconhecidas do Brasil. Antes que o seu livro modificasse a percepção do que ocorria no sertão, todavia, o próprio Euclides compartilhou do horizonte das expectativas formadas pela camada urbana, letrada e patriota, acerca do que era entendido como rebelião monarquista contra a República.

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Biografia do Autor

Paula Regina Siega, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, Bahia, Brasil

Doutora em Línguas, Culturas e Sociedades pela Universidade de Veneza (2011), com Mestrado e Graduação na área de Artes do Espetáculo e Produções de Multimeios no Departamento de Conservação dos Bens Culturais da Universidade de Veneza. Professora assistente na Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia), onde atuou como professora visitante (2014-2024). Pós-doutora pela Universidade Federal do Espírito Santo, modalidade DCR-CNPq/FAPES (2012-14). É professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras – Linguagens e Representações da UESC e foi docente colaboradora/permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFES (2012-2024). Atua nas linhas de pesquisa Literatura e Interfaces (UESC) e Poéticas da Antiguidade à Contemporaneidade (UFES). Interessa-se pelos seguintes temas: literatura brasileira; representações da antropofagia na literatura e artes brasileiras; representações de categorias sociais e étnicas na literatura brasileira; literatura, história e cultura; leitura e apropriação. Orientadora de mestrado e doutorado. Coordenadora do Núcleo Docente Estruturante do Colegiado de Letras, do qual é membro desde 2020. Coordenadora do Colegiado de Letras desde 2024 e membro do Consepe. Líder do grupo de Estudos Cânone: Dissidências e Reexistências (UESC). Membro do grupo Núcleo de Estudos em Transculturação, Identidade e Reconhecimento (Ca’ Foscari; UFES). Coordenadora do Laboratório de Memória e Cultura da UESC, contemplado pelo Edital MCTI/FINEP/FNDCT/Identidade Brasil Recuperação e Preservação de Acervos 2024.

Maria Cláudia Bachion Ceribeli, Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), Piúma, Espírito Santo, Brasil

Doutora em Letras na área de concentração dos Estudos Literários, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES, 2024). Mestrado em Letras na área de concentração dos Estudos Literários, pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES, 2019). Especialista em Ciências da Educação pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) e pela Università Ca’ Foscari Venezia. Possui MBA em Comunicação e Marketing Empresarial pela Universidade de Rio Verde (FESURV) e Licenciatura Plena em Educação Artística pela Universidade de Franca (Unifran). Docente desde 1984, tendo atuado até 2004 na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e, a partir de 2005, na Secretaria da Educação do Estado de Goiás, onde permaneceu até 2010. Entre 2011 e 2015, atuou como professora de Arte no Estado do Espírito Santo. Atualmente é professora efetiva de Arte no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), também como coordenadora do Núcleo de Arte e Cultura do Campus Piúma entre 2016 e 2021. Áreas de interesse: Arte, Tradução intersemiótica, Literatura comparada, Literatura, Estudos literários, Estudos intermidiáticos. Atualmente, é coordenadora do programa de extensão Núcleo de Arte e Cultura NAC do Ifes campus Piúma.

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Publicado

2025-11-14

Como Citar

Siega, P. R., & Bachion Ceribeli, M. C. (2025). Canudos e a mídia republicana de fim de século: os gestos de leitura de Euclides da Cunha e Machado de Assis . Letras De Hoje, 60(1), e48172. https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.48172