Os Vandrés do sertão: música sertaneja, ufanismo e reconstruções da memória na redemocratização

Gustavo Alves Alonso Ferreira

Resumo


A música sertaneja foi, em grande parte, embora não somente, marcada pelo apoio ao regime ditatorial inaugurado em 1964. Assim como a quase totalidade dos gêneros musicais brasileiros, muitos artistas sertanejos apoiaram ufanistamente o regime. Este artigo visa mostrar como os músicos sertanejos reconstruíram sua relação com a memória do período ditatorial, especialmente a partir dos anos 1980, quando se engajaram no processo de redemocratização, apagando laços com o passado apologeta. Mesmo fazendo tal percurso comum a quase totalidade da sociedade brasileira, os sertanejos não conseguiram ser vistos como artistas “politizados” e permaneceram com a pecha de “adesistas” por longos anos, tema que será problematizado neste artigo.


Palavras-chave


Música sertaneja; Ditadura; Redemocratização; Resistência

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Referências


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DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-864X.2017.2.25062

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