Direito ao luto e sua repercussão na memória coletiva
um diálogo entre a tragédia de Antígona e a Guerrilha do Araguaia
DOI:
https://doi.org/10.15448/1984-6746.2025.1.46247Palavras-chave:
Antígona, direito ao luto, memória coletiva, ditadura militarResumo
O presente artigo tem por escopo analisar o direito ao luto e a sua influência na formação da memória coletiva. Num primeiro momento, o tema é apresentado a partir da tragédia de Antígona, escrita por Sófocles no século IV a.C. Em seguida, busca-se compreender a relação entre luto e memória fazendo-se referência aos desaparecimentos forçados ocorridos durante a ditadura militar no Brasil, com ênfase ao episódio da Guerrilha do Araguaia. A incursão na questão do luto público se apoia na filosofia política de Judith Butler e nas suas reflexões sobre o enquadramento seletivo que divide as “vidas passíveis de luto” das “vidas não passíveis de luto”. O presente estudo também analisa os riscos de manipulação da memória. A partir de uma pesquisa bibliográfica e documental, e através do diálogo entre a tragédia grega e os desaparecimentos forçados, foi possível compreender como o direito ao luto e seu impedimento pelo Estado afetam a memória coletiva, resultando em esquecimento.
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