Transcender sem transcendência: elementos para uma reabilitação materialista da religião

Palavras-chave: Hermenêutica da esperança. Idolatria. Conteúdo utópico Heimat.

Resumo

O objetivo deste artigo é compreender como Ernst Bloch articula as concepções de materialismo e religião. Apoiando-se especialmente em F. Schelling, Bloch elaborou uma concepção de materialismo que concebe a capacidade de transcender sem a necessidade de recorrer a um ente transcendente. É a recusa radical de qualquer forma de idolatria. Carregadas de conteúdo utópico, como indicara Feuerbach, as religiões seriam um locus privilegiado de pré-anúncio e emergência do inédito. Seria preciso, no entanto, trazer esses conteúdos para o âmbito da práxis social mediante uma hermenêutica da esperança, de modo que não mais permaneçam apartados do ser humano, como se fossem predicados de um ser transcendente. Se a posição materialista contribui para trazer os conteúdos religiosos de volta para a imanência, a religião, por sua vez, contribui para libertar o materialismo de seus enrijecimentos, acrescentando-lhes conteúdos e sentidos humanos e messiânicos. Assim, ao situar a religião em um horizonte materialista, Bloch contribui, simultaneamente, para evitar que ela se degrade em ideologia e para que o materialismo não se petrifique em dogmas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Rosalvo Schütz, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo, PR
Docente de Filosofia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), bolsista de produtividade do CNPq e pós doutorando no PPG em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, (PUCRS. POA, RS, Brasil)

Referências

BLOCH, Ernst. Atheismus im Christentum. Zur Religion des Exodus und des Reichs. Gesamtausgabe 14. Frankfurt a. M.: Suhrkamp,1977.

BLOCH, Ernst. Das Materialismusproblem, seine Geschichte und Substanz. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1972/1977b.

BLOCH, Ernst. Experimentum mundi. Fragen, Kategorien des Herausbringens, Praxis. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1975/1977c.

BLOCH, Ernst. Geist der Utopie. Zweite Fassung. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1964/1977d.

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2005. v. 1.

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2006. v. 3.

BLOCH, Ernst. Thomas Münzer als Theologe der Revolution. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1921/1977e.

DETSCHY, Beat. Ungleichzeitigkeit, Gleichzeitigkeit, Übergleichzeitigkeit. In: DIETSCHY, Beat; ZEILINGER, Doris; ZIMMERMANN, Rainer (hrg.). Bloch-Wörterbuch: Leitbegriffe der Philosophie Ernst Blochs. Berlin: Walter de Gruyter, 2012. p. 589-633. https://doi.org/10.1515/9783110256710.

FEUERBACH, Ludwig. A Essência do Cristianismo. Campinas: Papirus, 1988.

HARTMANN, Heiko. Atheismus. In: DIETSCHY, Beat; ZEILINGER, Doris; ZIMMERMANN, Rainer (hrg.). Bloch-Wörterbuch. Leitbegriffe der Philosophie Ernst Blochs. Berlin: Walter de Gruyter, 2012. p. 38-51.

LORENZONI, Anna Maria. “Não esqueça o melhor”: tema e variações da sinfonia ética em O Princípio Esperança de Ernst Bloch. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Filosofia, UNIOESTE, Toledo, 2019.

LÖWY, Michael. Marxismo e religião: ópio do povo? In: BORON, Atilio A.; AMADEO, Javier; GONZALEZ, Sabrina. A teoria marxista hoje: Problemas e perspectivas. [S: l]: Expressão Popular, 2007.

LÖWY, Michael. Ópio do povo? Marxismo crítico e religião. Revista Movimento: Crítica, teoria e ação, [s. l.], abr. 2018. Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2018/04/opio-do-povo-marxismo-critico-e-religiao-michael-lowy/. Acesso em: 09 out. 2019

MARX, Karl. Contribuição à crítica da Filosofia do Direito de Hegel (Introdução).In: MARX, Karl. Manuscritos Económico-Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1964.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1964a.

MOLTMANN, Jürgen. Theologie der Hoffnung. Untersuchungen zur Begründung und zu den Konsequenzen einer christlichen Eschatologie. München: Chr. Kaiser Verlag München, 1966.

MÜNSTER, Arno. Ernst Bloch: filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

RAULET, Gérard. Die Utopie des Reichs. In: ZIMMERMANN, Rainer (org.). Ernst Bloch: das Prinzip Hoffnung. Reihe Klassiker Auslegen. Herausgegeben von Otfried Höffe.Berlim: De Gruyte, 2017. p. 337-357.

SCHNEIDER, Volker. Schellings Ökonomie Gottes: eine Spurensuche mit Bloch. In: JAHRBUCH DER ERNST-BLOCH-ASSOZIATION. Vorschein 33. Nürnberg: Antogo Verlag, 2015. p. 95-120.

SCHELLING, J. Friedrich. Philosophie der Offenbarung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1977.

SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. A relação dialética do homem com a natureza. Estudos histórico-filosóficos sobre o problema da natureza em Karl Marx. Tradução de Rosalvo Schütz. Cascavel: Adunioeste, 2019.

SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. Die Produtiktivität der Natur und die Produktivität der Menschen – Schellings Konkretionen zur Prozessphilosophie Ernst Bloch. In: JAHRBUCH DER ERNST-BLOCH-ASSOZIATION. Vorschein 33. Nürnberg: Antogo Verlag, 2015. p. 15 -36.

SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. Ernst Bloch – Hoffnung auf ein Allianz von Geschichte und Natur. In: SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. Das dialektische Verhältnis des Menschen zur Natur. Philosophische Studien zu Marx und zum westlichen Marxismus. Freiburg/München: Verlag Karl Alber, 2018.

SCHÜTZ, Rosalvo. Ateísmo um humanismo? Revista Dialectus, [s. l.], n. 04, p. 127-149, 2014a.

SCHÜTZ, Rosalvo. Antes e depois da razão: sobre a filosofia positiva de Schelling. Cadernos de Filosofia Alemã, [s. l.], v. 19, n. 2, p. 95-110, 2014. https://doi.org/10.11606/issn.2318-9800.v19i2p95-110.

SCHÜTZ, Rosalvo. Bloch, ein Schellinguianischer Marx? Überlegungen zu den Voraussetzungen einer engagierten Philosophie. In: JAHRBUCH DER ERNST-BLOCH-ASSOZIATION. Vorschein 33. Nürnberg: Antogo Verlag, 2015. p. 81-94.

SCHÜTZ, Rosalvo. Immanez und Latenz der kleinen Tagträume. In: ZIMMERMANN, Rainer (hrg). Ernst Bloch: das Prinzip Hoffnung. Reihe Klassiker Auslegen. Herausgegeben von Otfried Höffe. Berlim: De Gruyte, 2017. p. 35-49.

SOUZA, Ricardo Timm de. Ética do escrever: Kafka, Derrida e a literatura como crítica da violência. Porto Alegre: Zouk, 2018.

VIDAL, Francesca. Sherlock Holmes nos estudos culturais. Tradução de Rosalvo Schütz e Adriano Steffler. Revista Dialectus, ano 01, n. 2, p. 279-295, jan./jun. 2013.

VIDAL, Francesca; MÜLLER-SCHÖLL, Ulrich. Ernst. Sein wie Hoffnung. Näherung an Gelungenheit. In: ZIMMERMANN, Rainer (hrg). Ernst Bloch: das Prinzip Hoffnung. Reihe Klassiker Auslegen. Herausgegeben von Otfried Höffe. Berlim: De Gruyte, 2017. p. 359-384.

ZIMMERMANN, Rainer. Zur Grundlegung der Natur bei Bloch und Schelling. In: JAHRBUCH DER ERNST-BLOCH-ASSOZIATION. Vorschein 33. Nürnberg: Antogo Verlag, 2015. p. 53-68.

Publicado
2020-05-15
Como Citar
Schütz, R. (2020). Transcender sem transcendência: elementos para uma reabilitação materialista da religião. Veritas (Porto Alegre), 65(1), e36155. https://doi.org/10.15448/1984-6746.2020.1.36155