Soberania e governamentalização do Homo oeconomicus: entrecruzamentos críticos entre Ludwig Von Mises e Michel Foucault

Palavras-chave: Governamentalização. Homo oeconomicus. Ludwig von Mises. Michel Foucault. Soberania do consumidor.

Resumo

A partir da segunda metade do século XX, as políticas econômicas disseminaram um conjunto de dispositivos sutis, no sentido de seu exercício, ao mesmo tempo em que mais plurais, em relação à sua extensão. Um dos principais deslocamentos epistemológicos produzidos pelo discurso neoliberal diz respeito à inserção da subjetividade humana como elemento central da racionalidade econômica. A inclusão da subjetividade na lógica dos cálculos econômicos possibilitou construir a figura do homo oeconomicus como referente antropológico do novo discurso neoliberal. Um dos principais autores nessa jornada é Ludwig von Mises. A teoria misiana é profundamente filosófica: dela é possível coletar toda a estrutura da teoria neoliberal e de seu contraste bifocal entre a ação econômica do mercado e a teoria política do Estado, e nela o homo oeconomicus ocupa um lugar central. A genealogia de Michel Foucault sobre o escopo da governamentalidade neoliberal trouxe um olhar crítico diferente sobre os princípios constitutivos deste discurso. A par da teoria de Mises (como também de Hayek, Röpke e Böhm-Bawerk), a leitura de Foucault nos é precisa, na medida em que nos permite contrastar a razão de governo, constituída ao longo dos modelos de pensamento, com aquela ótica empresarial do homo oeconomicus como um suposto sujeito soberano. O intuito deste ensaio é provocar um cruzamento crítico entre o pensamento de Mises e de Foucault, concentrado principalmente no estudo das contradições que surgem no seio do discurso neoliberal da figura do homo oeconomicus como sujeito soberano, com as práticas de governamentalização desse mesmo homo oeconomicus. O ensaio é constituído de três momentos: (i) primeiramente, nosso objetivo é compreender a teoria do mercado de von Mises, com o intuito de alinhavar alguns conceitos importantes, em especial o conceito de soberania do homo oeconomicus; (ii) em seguida, temos como pretensão analisar a teoria de Foucault sobre a governamentalidade neoliberal, acenando em direção ao modo pelo qual a teoria de Mises projeta-se como uma razão econômica de governo; (iii) em um terceiro ponto, desenvolvemos algumas implicações derivadas dos cruzamentos das teses sobre a soberania do homo oeconomicus, de Mises, com as análises sobre a governamentalidade desse homo oeconomicus desenvolvidas pelos estudos de Foucault.

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Biografia do Autor

Castor Bartolomé Ruiz, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, RS

Doutor em Filosofia pela Universidade de Deusto, Espanha. Professor titular do Programa de Pós-Graduação Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos, São Leopoldo, RS, Brasil). Coordenador Cátedra Unesco – Unisinos de Direitos Humanos e violência, governo e governança. Coordenador Grupo de Pesquisa CNPq Ética, biopolítica e alteridade.

William Costa, Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, RS

Doutorando em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos, São Leopoldo, RS, Brasil).

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Publicado
2020-05-15
Como Citar
Ruiz, C. B., & Costa, W. (2020). Soberania e governamentalização do Homo oeconomicus: entrecruzamentos críticos entre Ludwig Von Mises e Michel Foucault. Veritas (Porto Alegre), 65(1), e35293. https://doi.org/10.15448/1984-6746.2020.1.35293
Seção
Moral & Political Philosophy