Submissões abertas (ENCERRADAS)

2018-04-15

ENTRE O PROVISÓRIO E O CONSENSUAL: A LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

(Ricardo Araújo Barberena/PUCRS e Leonardo Tonus/Universidade de Paris-Sorbonne — Paris IV) 

Teorizar sobre a literatura contemporânea é correr o risco de acabar uma discussão aos tabefes. Virginia Woolf já havia advertido sobre o perigo desse tipo de literatura, pois adentramos num campo minado no qual “dois críticos em uma mesa no mesmo momento irão pronunciar opiniões completamente diferentes sobre o mesmo livro” (WOOLF: 2007, 104). Sem poder conjugar os tradicionais juízos de valor em obras canonizadas, a crítica literária, alijada de uma prática coercitiva e consensual, acaba por se arriscar no tocante à provisoriedade das suas leituras. Não será de se espantar que os críticos “inevitavelmente cheguem aos tapas” (WOOLF: 2007, 104). Ao aceitarmos a navegação pelo contemporâneo, assumimos o risco de um constantesaber-em-processo que não raramente entra em rota de colisão e exposição, porque um mesmo livro pode ser entendido como uma duradora contribuição à literatura e uma mera miscelânea de mediocridade pretensiosa. Uma série de perguntas começa a atormentar esse flanco crítico: Quando começa o contemporâneo? Qual é a característica estética dominante da literatura brasileira contemporânea? De quem somos contemporâneos?                                                                            

E a literatura brasileira contemporânea? Como fica? Qual é a sua cara? Ao longo de eventos e aulas, não são raras as vezes que somos confrontados com a pergunta: E aí, professor, qual é a identidade da literatura brasileira contemporânea? É aqui que precisamos arquitetar uma reflexão que não esteja referendada pelos sistemas de semelhança e pela suposta fixidez de uma poética contemporânea.  Ao nos depararmos com projetos estéticos tão plurais, evidenciados quadrantes absolutamente heterogêneos que podem variar de uma palavra-mutilação de Elvira Vigna à palavra-respiração de Almicar Bettega. Assim sendo, talvez tenhamos que responder que a literatura brasileira contemporânea é constelatória. Afinal, uma epistemologia constelatória apresenta-se contra o momento de subjetividade cartesiana, menos preocupada em possuir o fenômeno do que em liberá-lo em seu próprio ser sensível e preservar seus elementos díspares em toda sua irredutível heterogeneidade. A constelação recusa-se a aguara-se a uma essência metafísica, e articula seus componentes de modo aberto. Como bem ressalta Terry Eagleton, na sua belíssima analise sobre a obra Walter Benjamin, o conceito de constelação é talvez uma das tentativas modernas “mais originais para romper com versões tradicionais da totalidade, representando uma resistência às formas mais paranóides do pensamento totalizante por pensadores que se opunham a toda simples celebração empirista do fragmento”.  A literatura brasileira contemporânea-constelatóriarompe com versões tradicionais de totalidade, pois o continuum letal da história parece abalado pelas lascas e estilhaços de uma estética em constante paralaxe: do intimismo ao realismo, do local ao urbano, do fantástico ao marginal.

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Theorizing about contemporary literature equals to run the risk of ending a discussion exchanging a few punches. Virginia Woolf had already forewarned us of the hazards of this type of literature, in which we enter minefield where "two critics at the same table at the same moment will pronounce completely different opinions about the same book." (WOOLF: 2007, 104). Without being able to conjugate the traditional value judgment in canonized works, literary criticism, driven away from a coercive and consensual practice winds up venturing itself towards the temporariness of its readings. No wonder the critics "inevitably come to blows" (WOOLF: 2007, 104). Once we accept navigating through the contemporary, we assume the risk of a constant knowing-in-process that more often than not takes a route of collision and exposure, because the same book may be seen as a long-lasting contribution to literature as well as sheer miscellaneous of pretentious mediocrity. A series of questions begin to afflict this critical perspective: When does the contemporary start? What is the dominant aesthetic characteristic of contemporary Brazilian literature? To whom are we contemporary?

Also, what about the contemporary Brazilian literature? Where does it stand? What does it look like? In events and class lectures, not rarely we hear the question "Hey, professor, so what is the identity of contemporary Brazilian literature?" In this point, we need to design a reflection that is not addressed by the systems of similarity or by the supposed fixity of contemporary poetics. In the realm of contemporary literature, we come across plural aesthetic projects, heterogeneous stressed quadrants that may range from the mutilation-in-word in Elvira Vigna all the way to the respiration-in-word in Amilcar Bettega. Therefore, we may have to answer that the contemporary Brazilian literature is constellatory in nature. After all a constellatory epistemology introduces itself against the moment of Cartesian subjectivity; it is less concerned with owning the phenomenon than with releasing it in its own sensitive being and preserving its disparate elements in its completely irreducible heterogeneity. The constellation refuses to grab on to a metaphysical essence, and articulates its components in an open way. As noted by Terry Eagleton, in his beautiful analysis of the work of Walter Benjamin, the concept of constellation is perhaps the "most strikingly original attempt in the modern period to break with traditional versions of totality. It represents a determined resistance to the more paranoid forms of totalizing thought on the part of thinkers who nevertheless set their face against any mere empiricist celebration of the fragment". The contemporary-constellatory Brazilian literature breaks with traditional versions of totality, as the lethal continuum of history seems to be shaken by the chips and shrapnel of an aesthetics in constant parallax, from Intimism to Realism, from the local to the urban, from the fantastic to the marginal.

 

 

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Prazo para submissão dos originais: 15 de junho de 2018

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