As ideias dentro do lugar

Liberalismo, escravidão e cinismo

Palavras-chave: Machado de Assis, Escravidão, Liberalismo, Cinismo, Realismo

Resumo

 Os problemas que a escravidão engendrou no cotidiano do capitalismo dependente brasileiro ganham representação na ficção machadiana. Roberto Schwarz, na década de 70, publicou o ensaio “As ideias fora lugar”, no qual o crítico procurou descrever aquilo que taxou de “comédia ideológica” nacional, que se caracterizaria pela importação, sem mediações, de ideias emanadas da Europa e dos EUA pelas oligarquias do País no Oitocentos. Essas ideias, supostamente, contrastavam com a realidade nacional, uma vez que, a exemplo do liberalismo e da escravidão, encontravam entraves com as forças produtivas brasileiras, gerando uma espécie de “cacoete ideológico”, um “torcicolo cultural”. O presente artigo abordou a peculiaridade com qual Machado de Assis plasmou a escravidão em Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), a partir da estetização da violência proporcionada pelo metabolismo semicolonial da sociedade brasileira na perspectiva das elites nacionais, ironizadas pelo Bruxo do Cosme Velho. Considerou-se como metodologia de pesquisa o cotejo bibliográfico da fortuna crítica machadiana, das contribuições das teorias literárias e da sociologia, como John Gledson, György Lukács, Octavio Ianni etc. Os resultados do problema ora tratado, a peculiar figuração do liberalismo e da escravidão na obra de Machado, distanciaram-se, assim, das conclusões de Roberto Schwarz no artigo supracitado.

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Biografia do Autor

Marcelo Burmann dos Santos, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES

Mestre em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, ES; professor do ensino básico em Serra, ES, Brasil.

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Publicado
2020-06-02
Como Citar
Burmann dos Santos, M. . (2020). As ideias dentro do lugar: Liberalismo, escravidão e cinismo. Letrônica, 13(3), e36924. https://doi.org/10.15448/1984-4301.2020.3.36924