“Escrever, ser útil à sociedade”

Uma análise da produção intelectual de Myrthes de Campos

Palavras-chave: Direito, Imprensa, Mulheres intelectuais

Resumo

Myrthes de Campos (1875-1965) é amplamente reconhecida como a primeira mulher a exercer a advocacia no Brasil. Ela se graduou em direito em 1898 e fez sua estreia no tribunal do júri no ano seguinte. Embora tenha publicado com frequência em jornais de grande circulação e em revistas jurídicas, bem como apresentado trabalhos em congressos acadêmicos, sua trajetória recebeu pouca atenção do ponto de vista da história intelectual. Este artigo apresenta uma análise de um conjunto de textos em que ela discutiu a capacidade civil das mulheres, o aborto e o tribunal do júri, procurando argumentar que “a primeira advogada” teve uma atuação mais complexa, contraditória e questionadora que as narrativas do pioneirismo e do excepcionalismo podem sugerir. Colocando os escritos de Myrthes de Campos em diálogo e em tensão com seus contemporâneos, pretende-se contribuir tanto para o estudo das mulheres como intelectuais, quanto para a compreensão de transformações por que passavam as práticas e os discursos jurídicos ao longo das primeiras décadas do século XX.

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Biografia do Autor

Mariana de Moraes Silveira, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo, SP, Brasil; professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, MG, Brasil.

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Publicado
2021-11-04
Como Citar
Silveira, M. de M. . (2021). “Escrever, ser útil à sociedade”: Uma análise da produção intelectual de Myrthes de Campos. Estudos Ibero-Americanos, 47(3), e39891. https://doi.org/10.15448/1980-864X.2021.3.39891
Seção
Dossiê: Mulheres intelectuais: práticas culturais de mediação