Soares de Passos, Álvares de Azevedo e a Escola Cemiterial lusófona

Autores

DOI:

https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.47287

Palavras-chave:

Escola Cemiterial, Trágico, Grotesco, António Soares de Passos, Álvares de Azevedo.

Resumo

Nas historiografias literárias portuguesa e brasileira, a bifurcação do Romantismo em três fases implicou, desde logo, certo desdém pela segunda geração nos dois países. Esse desapreço, manifesto já na alcunha hiperbólica que a designa – “ultrarromantismo” –, parecer ter enturvado a lupa da crítica para o escrutínio de inflexões nessa vertente romântica. Sob a premissa de que tal fase é mais nuançada do que presume a historiografia, este artigo examina em que medida ali se delineou, em Portugal e no Brasil, uma Escola Cemiterial análoga à Graveyard School britânica, com a qual literatos de ambos os países travaram contato. Para tanto, procedo ao cotejamento entre os poemas “O noivado do sepulchro”, de Soares de Passos, e “O poeta moribundo”, de Álvares de Azevedo, pois ambos encapsulam idiossincrasias dessa congênere lusófona e as exploram com mais finura do que seus pares. A apreciação comparatista desses textos evidencia que um e outro se fundam na conciliação entre duas categorias estéticas, o trágico e o grotesco, na medida em que aquela fornece a base temática (a morte de si ou do outro) e esta seu tratamento (o insólito ou o cômico). Em “O noivado do sepulchro”, a abordagem da morte harmoniza o trágico (a separação dos amantes) e o grotesco (o reencontro dos cadáveres), tal que ambos se atenuam reciprocamente e a balada não resta macabra nem burlesca. Por sua vez, em “O poeta moribundo”, o trágico e o grotesco se imiscuem de forma agonística, uma vez que a tragicidade da morte é contraposta pela comicidade da sua representação.

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Biografia do Autor

Raimundo Sousa, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Universitário do Araguaia (CUA), Barra do Garças, Mato Grosso, Brasil

Doutor em Estudos Literários (Teoria da Literatura e Literatura Comparada) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou como professor na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). Atualmente é professor adjunto de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Além do exercício do magistério, é um pesquisador prolífico cuja produção bibliográfica inclui dezenas de livros, capítulos e artigos publicados em periódicos brasileiros e estrangeiros.

 

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Publicado

2025-09-01

Como Citar

Sousa, R. (2025). Soares de Passos, Álvares de Azevedo e a Escola Cemiterial lusófona. Letras De Hoje, 60(1), e47287. https://doi.org/10.15448/1984-7726.2025.1.47287