Inconsistências e consequências da variável raça para a mensuração de desigualdades

Jeronimo Oliveira Muniz

Resumo


“Não é possível separar as pessoas com base na raça no Brasil” (Fry et al., 2007). Esse argumento é parte do sistema de classificação racial brasileiro pelo menos desde o começo do século 20, tendo sido também uma razão para ceticismo quanto ao sucesso dos programas de ação afirmativa implementados para mitigar as desigualdades raciais do Brasil. Este artigo investiga a influência da inconsistência da classificação racial sobre o nível e composição das desigualdades educacionais e de consumo. A partir dos dados da Pesquisa Social Brasileira (PESB) de 2002 demonstra-se que os indivíduos que têm sua raça/cor inconsistentemente classificada respondem por pelo menos metade da desigualdade total e por mais de um terço da desigualdade inter-racial. Quando os inconsistentemente classificados são excluídos da análise, entretanto, a proporção das desigualdades inter-raciais não se altera substantivamente, demonstrando que a mesma é fracamente influenciada pela incerteza racial atrelada ao método de coleta utilizado. 


Palavras-chave


Escolaridade. Cor. Consumo. Desigualdade. Distribuição racial

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