A historicidade da música, entre regimes e cenas

A aplicação teórico-metodológica do pensamento de Jacques Rancière ao estudo histórico da música

Palavras-chave: História, Música, Estética, Rancière, Jacques

Resumo

O presente artigo pretende introduzir o tema da historicidade da música, partindo de uma abordagem teórico-metodológica apoiada em aspectos da obra do filósofo francês Jacques Rancière. O debate trazido pelo autor acerca dos três regimes de identificação da arte – ético, representativo e estético – como forma de pensar e demonstrar a historicidade da literatura e do cinema, por exemplo, pode ser aplicado à análise da historicidade da música. Da forma pela qual podemos depreender da obra do autor francês, o aspecto principal a ser considerado para a historicidade de uma expressão musical não é o “tempo”, “época” ou “sociedade” a que uma expressão musical pertenceria – servindo como “contexto” geral de base para identificar sua especificidade histórica – mas sim, a racionalidade presente na forma pela qual se identificam os principais elementos de uma expressão musical. Nessa racionalidade, os princípios empregados na interpretação são fundamentais e, por sua vez, apontam para uma historicidade que compreende o tempo/espaço não como fator determinante de um evento histórico, mas como a convergência de múltiplas temporalidades em coexistência é elemento fundamental para não se compreender a historicidade da música a partir de blocos históricos estáticos. Ao longo do artigo, serão demonstrados breves exemplos de como os três regimes podem ser identificados a amplos debates a respeito da historicidade da música e, ao final, uma cena será construída para que se perceba em um evento inicialmente singular – as resenhas de E. T. A. Hoffmann e de Adolf Bernhard Marx acerca da Quinta e da Nona Sinfonia de Beethoven, respectivamente – a confrontação de dois regimes de historicidade da arte.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

André Fabiano Voigt, Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Uberlândia, MG, Brasil.

Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, SC, Brasil; professor Associado do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Uberlândia, MG, Brasil.

Referências

ARISTÓTELES. A política. São Paulo: EDIPRO, 2009.

ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: EDIPRO, 2011.

BEKKER, Immanuel. Aristotelis Opera. Berlim: Apud Georgium Reimerum, 1831. v. 2. Disponível em: https://archive.org/details/aristotelisopera02arisrich/page/n4. Acesso em: 26 fev. 2019.

BURNET, Ioannes [John]. Platonis Opera. Tomus IV. Oxonii [Oxford]: Typographeo Clarendoniano [Clarendon Press], 1902. Disponível em: https://archive.org/details/platonisopera01platgoog/page/n129/mode/2up. Acesso em: 3 abr. 2020.

FÉTIS, M. F. J. Symphonie avec Choeur Final Sur l’Ode à la Foie, de Schiller, pour grand Orchestre, Quatre Voix Solo et Choeur, par Louis de Beethoven (OEuvre 125.) Extrait de la Gazette Musicale de Berlin. Revue Musicale, Paris, Première Année, Tome I. Paris : Sautelet et Cie. 1827. p. 132 – 139. Disponível em: https://archive.org/details/revuemusicale1827pari/page/134/mode/2up. Acesso em: 3 abr. 2020.

HARTENSTEIN, G. Immanuel Kant‘s Sämmtliche Werke. Fünfter Band. Leipzig: Leopold Voss, 1867. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=ed4OAAAAIAAJ&pg=PP9&dq=HARTENSTEIN,+G.+Immanuel+Kant%27s+S%C3%A4mmtliche+Werke.+F%C3%BCnfter+Band.+Leipzig:+Leopold+Voss,+1867.&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiDudv6iMzoAhUBd98KHf6aCQUQ6AEIXTAF#v=onepage&q=HARTENSTEIN%2C%20G.%20Immanuel%20Kant’s%20S%C3%A4mmtliche%20Werke.%20F%C3%BCnfter%20Band.%20Leipzig%3A%20Leopold%20Voss%2C%201867.&f=false. Acesso em: 3 abr. 2020.

HOFFMANN, E. T. A. O melófobo e a Quinta Sinfonia de Beethoven. São Paulo: Editora Clandestina, 2016. 79 p.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

KAWANO, Marta; CARVALHO, Bruno Berlendis de. E.T. A. Hoffmann e a música instrumental de Beethoven. Literatura e Sociedade: Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada/USP, São Paulo, n. 16, p. 108-131, 2012. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/64572/67214. Acesso em: 2 abr. 2020. https://doi.org/10.11606/issn.2237-1184.v0i16p108-131.

MARX, Adolf Bernhard. Recensionen. Symphonie mit Schlusschor über Schillers Ode an die Freude, für großes Orchester, vier Solo- und vier Chorstimmen komponiert von Ludwig von Beethoven. 125tes Werk. Mainz, Paris und Antwerpen bei Schotts. Partitur und Stimmen. Berliner Allgemeine Musikalische Zeitung, Berlin, Dritter Jahrgang, v. 22. n. 47. p. 373-378, Nov. 1826. Disponível em: https://archive.org/details/BerlinerAllgemeineMusikalischeZeitung1826/page/n467/mode/2up. Acesso em: 3 abr. 2020.

PEREIRA, Aires Manuel Rodeia dos Reis. A mousiké: das origens ao drama de Eurípides. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2001. 519 p.

PLATÃO. A República. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2001.

RANCIÈRE, J. A historicidade do cinema. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo, v. 44, n. 48, p. 245-263, 19 dez. 2017. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2017.133369. Acesso em: 02 abr. 2020.

RANCIÈRE, Jacques; JDEY, Adnen. La méthode de la scène. Paris: Lignes, 2018.

RANCIÈRE, Jacques. A comunidade estética. Revista Poiésis, Niterói, n. 17: 169-187, jul. 2011. Disponível em: http://www.poiesis.uff.br/PDF/poiesis17/Poiesis_17_TRAD_Comunidade.pdf. Acesso em: 25 jun. 2014.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005.

RANCIÈRE, Jacques. L’historicité du cinéma. In: DE BAECQUE, Antoine; DELAGE, Christian (org.). De l’histoire au cinéma. Paris: Compléxe, 1998. p. 45-60.

RANCIÈRE, Jacques. La méthode de l’égalité. Montrouge: Bayard, 2012.

SCHLEGEL, August Wilhelm von. [Vorlesungen] Ueber dramatische Kunst und Literatur. Zweiter Theil. Heidelberg: Mohr und Winter, 1817. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=78QCAAAAYAAJ&hl=pt-BR&source=gbs_book_other_versions. Acesso em: 3 abr. 2020.

WALLACE, Robin (org.). The Critical Reception of Beethoven’s Compositions by His German Contemporaries, Op. 125. Boston: Center for Beethoven Research/Boston University, 2017.

WALLACE, Robin. Beethoven’s Critics: aesthetic dilemmas and resolutions during the composer’s lifetime. New York: Cambridge University Press, 1986.

Publicado
2021-04-26
Como Citar
Voigt, A. F. (2021). A historicidade da música, entre regimes e cenas: A aplicação teórico-metodológica do pensamento de Jacques Rancière ao estudo histórico da música. Oficina Do Historiador, 14(1), e37559. https://doi.org/10.15448/2178-3748.2021.1.37559