Ausências e estereótipos no romance brasileiro das últimas décadas

Alterações e continuidades

Palavras-chave: Romance brasileiro contemporâneo, Personagens, Representação

Resumo

O artigo apresenta e discute os resultados de uma pesquisa sobre os 689 romances de autores brasileiros publicados pelas mais importantes editoras do país entre 1965 e 1979 e entre 1990 e 2014. Os dados mostram que o romance brasileiro contemporâneo privilegia a representação de um espaço social restrito. Suas personagens são, em sua maioria, brancas, do sexo masculino e das classes médias. Sobre outros grupos, imperam os estereótipos. As mulheres brancas aparecem como donas-de-casa; as negras, como empregadas domésticas ou prostitutas; os homens negros, como bandidos. As mudanças ao longo do tempo, embora não estejam ausentes, não são de grande monta. Assim, o campo literário, embora permaneça quase imune às críticas que outros meios de expressão simbólica costumam receber, tende a reproduzir os padrões de exclusão da sociedade brasileira.

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Biografia do Autor

Regina Dalcastagnè, Universidade de Brasília, Brasília (UnB), DF, Brasil.

Regina Dacastagnè é professora titular livre de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Estudos sobre Literatura Brasileira Contemporânea, e pesquisadora do CNPq.

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Publicado
2021-06-11
Como Citar
Dalcastagnè, R. (2021). Ausências e estereótipos no romance brasileiro das últimas décadas: Alterações e continuidades. Letras De Hoje, 56(1), e40429. https://doi.org/10.15448/1984-7726.2021.1.40429
Seção
Seção Especial