Transcender sem transcendência: elementos para uma reabilitação materialista da religião

Rosalvo Schütz

Resumo


O objetivo deste artigo é compreender como Ernst Bloch articula as concepções de materialismo e religião. Apoiando-se especialmente em F. Schelling, Bloch elaborou uma concepção de materialismo que concebe a capacidade de transcender sem a necessidade de recorrer a um ente transcendente. É a recusa radical de qualquer forma de idolatria. Carregadas de conteúdo utópico, como indicara Feuerbach, as religiões seriam um locus privilegiado de pré-anúncio e emergência do inédito. Seria preciso, no entanto, trazer esses conteúdos para o âmbito da práxis social mediante uma hermenêutica da esperança, de modo que não mais permaneçam apartados do ser humano, como se fossem predicados de um ser transcendente. Se a posição materialista contribui para trazer os conteúdos religiosos de volta para a imanência, a religião, por sua vez, contribui para libertar o materialismo de seus enrijecimentos, acrescentando-lhes conteúdos e sentidos humanos e messiânicos. Assim, ao situar a religião em um horizonte materialista, Bloch contribui, simultaneamente, para evitar que ela se degrade em ideologia e para que o materialismo não se petrifique em dogmas.

Palavras-chave


Hermenêutica da esperança. Idolatria. Conteúdo utópico Heimat.

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DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1984-6746.2020.1.36155

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