“Não pode!”: A função Paterna e a Obesidade Infantil

Fernanda Kimie Tavares Mishima-Gomes, Stéfani Zanovello Dezan, Valéria Barbieri

Resumo


Embora a literatura científica reconheça o papel da família como promotora de um ambiente emocional passível de favorecer o desenvolvimento e a manutenção da obesidade infantil, a maioria dos estudos dessa natureza restringiu-se principalmente à consideração do papel e da função materna nesse contexto, negligenciando o valor do pai nesse processo. Visando preencher essa lacuna, este estudo teve como objetivo compreender os psicodinamismos de pais de crianças obesas e sua influência no exercício da paternidade, de modo a ampliar o conhecimento do processo emocional subjacente a essa patologia, conforme vivido no relacionamento familiar. Participaram cinco homens casados, entre 32 e 44 anos, de nível socioeconômico médio. Realizou-se avaliação psicológica por meio de entrevista, Desenho da Figura Humana e Teste de Apercepção Temática. Os dados foram analisados segundo a abordagem psicanalítica. Os pais apresentaram dificuldade no contato com a própria agressividade, não admissão da impulsividade, uso de defesas rígidas e alto nível de exigência em relação aos filhos. O exercício da paternidade foi por eles vinculado mais ao suprimento material do que ao afetivo, o que seria passível de contribuir para que as crianças também se relacionassem com objetos concretamente (ingestão alimentar).

Palavras-chave


Pai; criança; obesidade; técnicas Projetivas.

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DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-8623.2014.2.13307

e-ISSN: 1980-8623 | ISSN-L: 0103-5371


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