Verbos aspectuais: alternância argumental

Luana Lopes Amaral

Resumo


Neste artigo, apresentamos uma proposta de análise para a alternância sintática que ocorre com os verbos chamados de aspectuais ou aspectualizadores. Esses verbos podem ocorrer em sentenças transitivas e intransitivas e tais ocorrências podem ser exemplificadas por pares de sentenças como a professora começou a aula/ a aula começou. Primeiramente, argumentamos que essa alternância não é a alternância causativo-incoativa, que ocorre com verbos de mudança de estado como quebrar (o ladrão quebrou o vidro da porta/o vidro da porta quebrou). Mostramos como o fenômeno analisado se distingue da alternância causativo-incoativa e apresentamos algumas evidências para nossa argumentação. Em seguida, propomos, seguindo outros autores, que os verbos aspectuais são operadores e predicadores monoargumentais. Na análise da alternância desses itens, propomos, então, que esses verbos podem ter uma forma transitiva derivada, dependendo da semântica de seu único argumento. Como os aspectualizadores são operadores que operam sobre eventualidades, seu único argumento deve obrigatoriamente denotar uma eventualidade. Se esse argumento for também um predicador, seu argumento poderá aparecer na sintaxe na posição de sujeito do verbo aspectual, derivando a estrutura transitiva (como ocorre com verbos de alçamento e auxiliares). Concluímos, assim, que a alternância argumental em jogo não é uma alternância dos argumentos do verbo aspectual, mas uma alternância argumental do predicador encaixado, que é argumento do aspectualizador.

Palavras-chave


verbos aspectuais; alternância argumental; sintaxe; semântica

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DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1984-4301.2015.2.20299

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