Wittgenstein: a filosofia como uma composição poética

Edimar Inocencio Brigido

Resumo


RESUMO Este trabalho pretende analisar em que sentido se dá a afirmação wittgensteiniana, expressa na obra Cultura e Valor, onde considera que a filosofia só deveria ser escrita como uma composição poética. De acordo com Wittgenstein, os poetas são criadores de novas linguagens, Shakespeare seria um exemplo paradigmático disso. Porém, o autor do Tractatus, em sua atividade filosófica, não procurou criar uma nova linguagem, antes, lutou com a linguagem a fim de superar os erros decorrentes do seu mau uso. No máximo, o que Wittgenstein fez foi estruturar novos símiles, imaginar novas formas de vida, criar conceitos fictícios, assim como a poesia faz e utiliza, com o objetivo de tornar a filosofia uma genuína atividade terapêutica libertadora. É importante destacar que as metáforas e, mais amplamente, as ligações analógicas terão um papel importante no pensamento e nos textos de Wittgenstein após o Tractatus. Segundo ele, na poesia cada expressão precisa ser inserida cuidadosamente e artisticamente no local adequado, é isso que garante a beleza, a plenitude e a integridade do poema. Da mesma forma, considera que em filosofia uma expressão correta ou boa metáfora pode ser mais importante do que a formulação de uma hipótese ou de uma teoria. Uma boa analogia gera como consequência a satisfação, enquanto que uma teoria ou hipótese precisa passar pelo crivo da verificação. Além do mais, uma teoria nunca é definitiva, já uma metáfora subsiste no tempo, gerando um efeito libertador. A atividade filosófica desenvolvida por Wittgenstein, em seus últimos escritos, é uma atividade que se dá na linguagem de todos os dias, comum a todos os homens em suas mais variadas formas de vida. Desse modo, ao comparar a filosofia com a poesia, Wittgenstein está chamando a atenção para o seu modo de fazer filosofia. Trata-se do mesmo modelo característico dos poetas, ou seja, uma atividade de composição, que exige atenção e calma, assim como uma verdadeira obra artística. Na poesia, a língua ultrapassa sua função meramente comunicativa e se torna a matéria prima para a própria obra de arte. Em outras palavras, na atividade poética o esforço do poeta incide sobre a estrutura daquilo que ele pretende expressar, sobre a melhor forma de dizer. Assim, aproximação possível entre o poeta e Wittgenstein é no que tange à matriz poética, característica do pensamento wittgensteiniano, o que nos permite questionar: seria Wittgenstein um filósofo poeta?

Palavras-chave


Filosofia. Poesia. Linguagem. Atividade. Wittgenstein.

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DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1983-4012.2015.1.18613

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Previsão: 06/07/2020


e-ISSN: 1983-4012


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