“Diz a preta mina...”: cores e categorias sociais nos processos de divórcio abertos por africanas ocidentais, Rio de Janeiro, século XIX

Juliana Barreto Farias

Resumo


Partindo de um conjunto de processos de divórcio abertos por africanas ocidentais, conhecidas como pretas (ou negras) minas, no Rio de Janeiro do século XIX, pretendo, neste artigo, discutir como as associações entre cor, condição social. identidades étnicas e certos estereótipos e comportamentos, como as noções de honra e honestidade, pareciam fundamentais – às vezes eram mesmo determinantes – para o desenrolar dessas ações. Nesse processo, observaremos como juízes, padres, advogados, procuradores e também cativos e forros percebiam – e compartilhavam – determinados códigos e signos de identificação das populações africanas que viviam na cidade do Rio.


Palavras-chave


divórcio; africanos; minas; pretas; pretos; cor; honra.

Texto completo:

PDF

Referências


ABREU, Martha. Sobre mulatas orgulhosas e crioulos atrevidos: conflitos raciais, gênero e nação nas canções populares (Sudeste do Brasil, 1890-1920). Tempo, Rio de Janeiro, n. 16, p. 143-173, 2003.

AGUIAR, Júlia Ribeiro; GUEDES, Roberto. Pardos e pardos forros: agentes da escravidão e da mestiçagem (São Gonçalo do Amarante, Rio de Janeiro, século XVIII). In: GUEDES, Roberto; FRAGOSO, João. História social em registros paroquiais: Sul-Sudeste do Brasil, séculos XVIII-XIX. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016. p. 87-120.

ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas. Mulheres da colônia: condição feminina nos conventos e recolhimentos do Sudeste do Brasil. Rio de Janeiro, Brasília: José Olympio, Edunb, 1993.

BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1728. 8 v. Disponível em:

http://dicionarios.bbm.usp.br/pt-br/dicionario/. Acesso em: 15 jul. 2018.

BRÜGGER, Sílvia. Valores e vivências conjugais: o triunfo do discurso amoroso (bispado do Rio de Janeiro, 1750-1888). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1995.

CASTELNAU-L’ESTOILE, Charlotte de. O ideal de uma sociedade escravista cristã: Direito Canônico e matrimônio dos escravos no Brasil colônia. In: FELTIER, Bruno; SOUZA, Evergton Sales. A Igreja no Brasil. Normas e práticas durante a vigência das Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Unifesp, 2011.

CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.

CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

CUNHA, Manuela Carneiro da. Negros, estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo: Brasiliense, 1985.

______. Antropologia do Brasil: mito, história e etnicidade. São Paulo: Brasiliense/Edusp, 1986.

ELTIS, David. The Diaspora of Yoruba Speakers, 1650-1865: Dimensions and Implications. In: FALOLA, Toyin; CHILDS, Matt (Org.). The Yoruba Diaspora in the Atlantic World. Bloomington: Indiana University Press, 2004.

FARIA, Sheila de Castro. Sinhas pretas, damas mercadoras: as pretas minas nas cidades do Rio de Janeiro e de São João del Rei (1700-1850). Tese de professor titular defendida junto ao Departamento de História da UFF, Niterói, 2004.

FARIAS, Juliana B. Fortunata et João José “parents de nation”. Mariage et divorce chez lês Africans de l’ouest à Rio de Janeiro au XIXe siècle”. Brésil(s). Sciences humaines et sociales, n. 1, maio 2012a. p. 79-102.

______. Sob o governo das mulheres: casamento e divórcio entre africanos ocidentais no Rio de Janeiro do século XIX. In: Farias, Juliana Barreto; Gomes , Flávio; Xavier , Giovana (Org.). Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação. São Paulo: Selo Negro Edições, 2012b. p. 200-223.

______. No governo das minas: vivências e disputas conjugais entre africanos ocidentais no Rio de Janeiro do século XIX. Revista de História Comparada (UFRJ), v. 7, p. 5-46, 2013.

______. Mercados minas: africanos ocidentais na Praça do Mercado do Rio de Janeiro (1830-1890). Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio de Janeiro/Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2015.

FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flávio S.; SOARES, Carlos E. L. No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro, século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.

FARIAS, Juliana Barreto; SOARES, Mariza de Carvalho. De gbe a iorubá: os pretos minas no Rio de Janeiro, séculos XVIII-XX. Revista África(s), v. 04, n. 08, p. 46-62, jul.-dez. 2017.

GOLDSCHIMIDT, Eliana Maria Rea. Convivendo com o pecado na sociedade colonial paulista (1719-1822). São Paulo: Annablume, 1998.

GOMES, Flávio; SOARES, Carlos E. L. “Dizem as quitandeiras”: ocupações e identidades étnicas numa cidade escravista: Rio de Janeiro, século XIX. Acervo, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 3-16, jul.-dez. 2002.

GRAHAM, Sandra. Caetana diz não: histórias de mulheres da sociedade escravista brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

______. Ser mina no Rio de Janeiro do século XIX. Afro-Ásia, Salvador, n. 45, 2012.

HOLLOWAY, Thomas. Polícia no Rio de Janeiro. Repressão e resistência numa cidade do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1998.

GUEDES, Roberto. Egressos do cativeiro: trabalho, família, aliança e mobilidade social (Porto Feliz, São Paulo, c. 1798-c.1850). Rio Janeiro: Mauad X, FAPERJ, 2008.

KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. História do Rio de Janeiro: do capital comercial ao capital industrial e financeiro. Rio de Janeiro: IBMEC, 1978. Vol. 1.

MAMIGONIAN, Beatriz Galloti. Razões de direito e considerações políticas: os direitos dos africanos no Brasil oitocentista em contexto atlântico. Texto apresentado no 5º Encontro Escravidão e liberdade no Brasil meridional. Porto Alegre, maio de 2011.

MARTINS, Ana Luiza. Imprensa em tempos de Império. In: MARTINS, Ana L.; LUCA, Tania Regina de. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008.

MATTOS, Hebe. Das cores do silêncio: os significados da liberdade do Sudeste escravista – Brasil, século XIX. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

______. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

______. Racialização e cidadania no Império do Brasil. In: CARVALHO, José Murilo de; NEVES, Lucia Maria Bastos Pereira. Repensando o Brasil do oitocentos: cidadania, política e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 349-391.

OLIVEIRA, Maria Inês. Quem eram os negros da Guiné? A origem dos africanos da Bahia. Afro-Ásia, n. 19/20, p. 37-73, 1997.

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da Lingua Brasileira, por Luiz Maria da Silva Pinto, natural da Provincia de Goyaz. Typographia de Silva, 1832. Disponível em:

http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/3/capaz. Acesso em: 15 jul. 2018.

REIS, João José. Domingos Sodré, um sacerdote africano: escravidão, liberdade e candomblé na Bahia do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

______. Entre parentes: nações africanas na cidade da Bahia, século XIX. In: SOUZA, Evergton Sales; MARQUES, Gilda; SILVA, Hugo R. (Org.). Salvador da Bahia: retratos de uma cidade atlântica. Salvador-Lisboa: EDUFBA, CHAM, 2016. p. 273-312.

SELA, Eneida M. Mercadante. Modos de ser, modos de ver. Viajantes europeus e escravos africanos no Rio de Janeiro (1808-1850). Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

SILVA, Antonio Moraes. Diccionario da lingua portugueza – recompilado dos vocabularios impressos ate agora, e nesta segunda edição novamente emendado e muito acrescentado. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813. Vol. 2.

SILVA, Maciel Henrique. Pretas de honra: vida e trabalho de domésticas e vendedoras do Recife, século XIX (1840-1870). Recife: Editora da UFPE; Salvador: EdUFBA, 2011.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: Editora da USP, 1984.

SILVA, Marilda Santana da. As mulheres no Tribunal Eclesiástico do Bispado de Mariana (1748-1830). Dissertação (Mestrado em História,) – Unicamp, Campinas, 1998.

______. Normas e padrões do Tribunal Eclesiástico Mineiro (1750-1830) e o modo de inserção das mulheres neste universo jurídico. História Social, Campinas-SP, n. 7, p. 99-118, 2000.

SOARES, Mariza C. From Gbe to Yoruba: Ethnic Change and the Mina Nation in Rio de Janeiro. In: CHILDS, Matt D.; FALOLA, Toyin (Ed.). The Yoruba Diaspora in the Atlantic World. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 2004. p. 231-247.

SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da cor, identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

SOARES, Mariza de Carvalho (Org.). Rotas atlânticas da diáspora africana: da Baía do Benim ao Rio de Janeiro. Niterói: Eduff, 2007.

SOARES, Ubirathan Rogério. Os processos de divórcio perpétuo nos séculos XVIII e XIX: entre o sistema de aliança e o regime da sexualidade. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.

SOUZA, Maria Cecília Cortez de. Crise familiar e contexto social. São Paulo, 1890-1930. Bragança Paulista: EDUSF, 1999.

VIDE, Sebastião Monteiro de. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. Edição organizada por Bruno Feltier e Evergton Sales Sousa. São Paulo: Edusp, 2010.

ZANATTA, Aline Antunes. Justiça e representações femininas: o divórcio entre a elite paulista (1765-1822). Dissertação (Mestrado em História) – Unicamp, Campinas, 2005.




DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-864X.2018.3.32764

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

e-ISSN: 1980-864X | ISSN-L: 0101-4064


Exceto onde especificado diferentemente, aplicam-se à matéria publicada neste periódico os termos de uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional, que permite o uso irrestrito, a distribuição e a reprodução em qualquer meio desde que a publicação original seja corretamente citada.