Revisitação aos atores e territórios psicotrópicos do Porto: olhares etnográficos no espaço de 20 anos

Simão Mata, Luís Fernandes

Resumo


Este artigo tem como proposta acompanhar a evolução dos atores e dos territórios psicotrópicos desde o início dos anos 90 até à atualidade, tendo por base o conhecimento gerado por duas investigações etnográficas levadas a cabo no Porto. A segunda, atualmente em curso, é a revisitação da primeira, realizada por um dos autores nos anos 90. As unidades de estudo, tanto na primeira etnografia como na atual, são espaços situados no interior de bairros sociais ou nas suas imediações nos quais há concentração de indivíduos com interesses nas drogas, sejam eles comerciais ou de consumo. Ambas as pesquisas caracterizam as dinâmicas territoriais do fenómeno droga bem como os seus principais protagonistas em territórios psicotrópicos que se tornaram referenciados no discurso mediático como “bairros das drogas”. Relativamente aos atores aprofundamos a fenomenologia do “agarrado”, descrevendo as suas práticas e vivências, as funções várias que pode desempenhar no funcionamento do território psicotrópico, as estratégias que desenvolve na rua para conseguir financiar o seu consumo. Encontramos hoje sensivelmente o mesmo perfil sociográfico dos atores que caracterizámos na primeira investigação, se excetuarmos o facto de naquela altura haver bastantes indivíduos mais jovens. Quanto aos territórios psicotrópicos, a possibilidade de os olharmos com 20 anos de distância entre as duas etnografias permite notar: a estabilidade temporal das suas características e funcionamento; a grande longevidade de alguns deles, que continuam hoje com a sua localização, dinâmicas e funções mais ou menos inalteradas; grande capacidade de resistência às investidas policiais.


Palavras-chave


Revisitação etnográfica; Periferia; Território; Drogas.

Texto completo:

PDF

Referências


CUNHA, Manuela. O bairro e a prisão: a erosão de uma fronteira. In: Manuela Cunha (org.). Aquém e além da prisão: cruzamentos e perspectivas. Lisboa: 90 graus, 2008. p. 111-123.

CUNHA, Manuela. Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos. Lisboa: Fim de século, 2002.

FERNANDES, Luís. Terapias punitivas e punições terapêuticas: o estranho caso do “toxicodependente”. In: Manuela Cunha; Jean-Yves Durand (org.). Razões de saúde: poder e administração do corpo. vacinas, alimentos, medicamentos. Lisboa: Fim de século, 2011. p. 39-56.

FERNANDES, Luís; SILVA, Maria. O que a droga fez à prisão: um percurso a partir das terapias de substituição opiácea. Lisboa: Instituto da Droga e da Toxicodependência, 2009.

FERNANDES, Luís. O sítio das drogas. Lisboa: Editorial Notícias, 1998.

FERNANDES, Luís. Actores e territórios psicotrópicos: etnografia das drogas numa periferia urbana. Porto, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, 1997. Tese de doutoramento.

FERNANDES, Luís. Territórios psicotrópicos. In: Cândido da Agra (org.). Dizer a droga ouvir as drogas: estudos teóricos e empíricos para uma ciência do comportamento adictivo. Porto: Radicário, Instituto de Ciências do Comportamento Desviante, 1993. p. 195-225.

INGOLD, Rodolph. La dépendance économique chez les héroinomanes. Revue Internationale de Criminologue et de Police Technique, v. 7, p. 331-338, 1984.

KUSENBACH, Margarethe. Street phenomenology: the go-along as ethnographic research tool. Ethnography, v. 4, n. 3, p. 455-485, 2003 10.1177/146613810343007.

LICHTERMAN, Paul. Interpretive reflexivity in ethnography. Ethnography, v. 18, n. 1, p. 35-45, 2015 10.1177/1466138115592418.

MATA, Simão; FERNANDES, Luís. Questões metodológicas de uma revisitação etnográfica a territórios psicotrópicos do Porto. Etnográfica, v. 22, n. 2, p. 311-333, 2018 10.4000/etnografica.5443.

MATA, Simão; FERNANDES, Luís. A construção duma política pública no campo das drogas: normalização sanitária, pacificação territorial e psicologia de baixo limiar. Global Journal of Community Psychology Practice, v. 7, p. 1-25, 2016.

MENDES, Maria. A demolição do bairro do Aleixo e a acção da população local vista pela imprensa diária e nas notícias online. In: Maria Mendes; Teresa Sá; José Crespo; Carlos Ferreira (orgs.). A cidade entre bairros. Lisboa: Caleidoscópio, 2012. p. 87-105.

PEREIRA, Virgílio; QUEIRÓS, João. Estado, alojamento e a “questão social”: elementos para a compreensão sociológica da formação da respectiva relação no Porto contemporâneo. Argumentos de Razón Técnica. Revista Española de Ciencia, Tecnología y Sociedad, y Filosofia de la Tecnología, n. 2, p. 113-128, 2009.

PEREIRA, Virgílio; QUEIRÓS, João. “It’s not a bairro, is it?”: subsistence sociability and focused avoidance in a public housing estate. Environment and Planning, v. 46, p. 1297-1316, 2014 10.1068/a46300.

POPOV, Lubomir; CHOMPALOV, Ivan. Crossing over: the interdisciplinary meaning of behavior setting theory. International Journal of Humanities and Social Science, v. 2, n. 19, p. 18-27, 2012.

QUEIRÓS, João. A experiência reiterada da relegação socioespacial perspectivada a partir de um bairro do Porto. In: Bruno Monteiro; Emília Marques; Inês Brasão; Inês Coelho; João Baía; João Queirós; José Matos; José Soeiro; Nuno Dias; Nuno Domingos; Sandra Leitão; Sara Conceição (orgs.). Tempos difíceis: as pessoas falam sobre a sua vida e o seu trabalho. Lisboa: Outro Modo Cooperativa Cultural, 2014. p. 49-54.

ROMANI, Oriol; FUNÈS, Jaime. Dejar la heroína. Madrid: Ed. Cruz Roja Española, 1985.

SPRADLEY, James. The etnographic interview. Belmont: Wadsworh Group, 1979.

WACQUANT, Loïc. Parias urbains. Paris: Le Decouvert, 2006.

WICKER, Allan. Behavior settings reconsidered: temporal stages, resources, internadynamics, context. In: Daniel Stokols; Irwin Altman (org.). Handbook of environmental psychology. New York: John Willey & Sons, 1987. p. 613-653.




DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1984-7289.2019.1.30648

Direitos autorais 2019 Civitas - Revista de Ciências Sociais

ISSN-L: 1519-6089  -  e-ISSN: 1984-7289

Civitas - Revista de Ciências Sociais

....................................................................................................................................................................................................

Este periódico é membro do Cope (Committee on Publication Ethics) e adere aos seus princípios. http://www.publicationethics.org


Licença Creative Commons
Exceto onde especificado diferentemente, a matéria publicada neste periódico é licenciada sob forma de uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

 

Políticas editoriales de revistas científicas brasileñas. Disponibilidad de depósito: Azul .

Copyright: © 2006-2019 Edipucrs